A Vida Junto da Morte

A vida junto da morte
Na carcassa de um carro à beira da estrada
Você ouve as gotas de chuva na lata enferrujada
Antes de senti-las cair na pele do rosto.
Cai a chuva, salvação depois da morte.
Ferrugem mais eterna do que sangue,
Mas bonita do que cor de labaredas.
O vento que é tempo, alterna
Com o vento que é lugar.
E Deus
Permanece na terra como um homem que sabe
Que esqueceu alguma coisa
E fica
Até lembrar.
E à noite você pode ouvir
Como maravilhosa melodia,
O homem e a máquina,
No seu lento caminho, do fogo rubro
Para a paz negra
E daí para a história
E daí para a arqueologia,
E daí para um belo estrato de geologia
Isso também é eternidade
Como o sacrifício humano que virou
Sacrifício animal e depois oração em voz alta
E depois oração dentro do peito
E afinal nem oração.
Jerusalém É A Cidade Berço
Jerusalém é a cidade berço que me embala
Quando eu acordo coisas acontecem comigo
No meio do dia como com um homem
Descendo as escadas da casa da amante
Pela ultima vez, seus olhos ainda fechados.
Mas meus dias me forçam a abrir os olhos
Para lembrar o rosto dos que passam:
Talvez esse me ame,
Talvez tenha escondido uma bomba
Embrulhada como presente para a amada
Vejo as falhas nos edifícios de pedra,
O buraco pelo qual a eletricidade escapa,
A fenda para a água,
A nudez dos fios telefônicos
E as bocas que suspiram.
Sou um homem de Jerusalém.
Piscinas e suas vozes
Não são parte de minha vida espiritual.
Poeira e minha consciência,
Pedra meu subconsciente
E todas minhas lembranças
São quintais cercados, em tardes de verão
Hino Ao Encantador Casal Varda E Schimmmel
Jerusalém no dia do casamento de
Schimmel: eu vi um beatnik desconhecido
Enfiar no ombro sua guitarra, como um rifle.
Eu vi um mendigo estender sua mão tinindo
Na porta do mictório publico, encarando
Homens que se abotoam. E no Complexo
Russo
Ouvi de noite putas novas
Cantando e dançando em seus cubículos
"Estie, Estie, vem comigo, Estie".
Jerusalém embebida em amor audiovisual.
Jerusalém ainda bêbada,
Espuma de turista nos seus lábios
Tomo a temperatura dela:
38 centígrados na sombra de suas axilas.
100 graus de felicidade
No anel de ouro.
Mas matzo! (*)
Schimmel prepara matzo pro seu casamento
Do leste, 7 bulldozers vermelhos cortando
As montanhas como um grande bolo de noivado.
10 steamrollers amarelos, 30 trabalhadores
Com bandeiras e suéteres de amarelo fluorescente.
21 estrondos ao cair da tarde:
Parabéns!
Schimmel e Varda descem lentamente
No pára-quedas da sinagoga branca.
E agora estão de pé, silenciosos, envolvidos
No celofane da graça de Deus.
Amor num quarto limpo
Como o sonho de anos de boa vida
Comprimindo em um momento de sono.
Schimmel e Varda:
Dois tranqüilizantes
Derretendo lentamente na boca
do mundo que, excitado, desmorona.