Tomando gosto

Eu não quero privar-me da poesia,
Por isso é que lhe peço que me espere:
Jamais alguém paciente encontraria
Para ouvir meu sofrido miserere.

Assim, eu vou tratando de compor,
Pedindo tão-somente que me ajude
Nas rimas em que não exista amor,
Por força de faltar-me tal virtude.

Compondo simplesmente belas trovas,
Não vou satisfazer nenhum dos mestres:
Preciso, antes de tudo, dar as provas
De que já superei os dons terrestres.

Acima, confessei o meu pecado,
Mas devo revelar que estou melhor:
Apenas continuo estabanado,
A repetir conceitos só de cor.

Percebe o bom amigo como gira
A roda destes temas que componho:
Eu toco quase sempre, em minha lira,
As notas que me mostram tão bisonho;

E juro que pretendo descrever
Minhalma, como prova de que estou
Cumprindo dos meus mestres o dever
De aqui jamais vir dar um raro show.

No entanto, é com agrado que mantenho,
Nos versos, o sagrado sentimento
De carregar nos ombros o meu lenho,
Sabendo que o leitor eu alimento.

O que devo pedir de bom pra mim?
Apenas que me façam linda prece,
Ainda que o meu verso tão ruim
Enseje que o leitor logo se apresse.

Conheço muita gente que diria
Que estou falsificando a minha dor.
Ocorre-me, porém, que, na poesia,
O sentimento é fácil de dispor.

Assim, vou terminando por agora,
Disposto a aqui voltar uma outra vez,
Sabendo que o preceito que vigora
Permite apresentar-se quem já o fez.

Desejo agradecer ao Pai do Céu
A permissão que tenho de escrever,
A fim de revelar quanto escarcéu
Está no coração do pobre ser.