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Sem Título nº II
Viver, um breve espanto, uma alegria
instantânea, uma centelha, um átimo,
viver, estar vivendo, nem trincar
o rubi da romã e já não ter
noção da fruta, perceber
no rosto a brisa e ao gesto
de tentar reter a pétala, perder
a flor, viver, viver? crispada
a pele o gelo da parada
do coração, perder
a brecha da visão, e o gozo
tênue, perceber
o invisível tremor como lamento
de um sonho em fuga, desprender,
viver e desprender-se, e escorregar
nas paredes do poço unhas, gemido,
terror da escura e demorada morte. Ah,
disse teu nome ó inominada, disse
e pousas na minha pálpebra o veludo
da tua eterna voz, supensa
nas proas naufragadas, nas escuras
virgindades dos bosques, morte,
ardil de seda no morango aceso,
atrás do reposteiro vigilante, espião
de segredos, torturada
deusa do rito excuso. Morte,
eu te nomeio como o tanger
de uma unha pelo som de uma corda
tensa, eu te nomeio
perdendo o sopro, andante do afogado
que se integrou no mar. Eternidade.
20-08-90.
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