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Mais um pouco
De volta a este bom posto mediúnico,
Pretendo evoluir em meu relato,
Que sei não ser primeiro, mas que é único
Na tentativa tosca em que me bato.
Na Terra, estive sempre por um fio
Entre fazer o bem sem ver a quem
E registrar no fisco o meu desvio
Das verbas, que dispunha sempre além.
Embora me servisse dessa mesa,
A vida bem levava de nababo.
Sabia que existia safadeza,
Mas logo disfarçava: - Eu não me gabo!
Aos oitenta, cheguei desprevenido,
Pensando ter cumprido toda a lei.
Não via no sofrer nenhum sentido,
Desconhecendo as normas que hoje sei.
Gritei que Jesus Cristo fora injusto,
Porquanto acreditava ser bem puro:
Somava cada ação prevendo o custo
E estava sempre pronto para o juro.
- Meu filho - me dizia o protetor -
Não vá com tanta sede para o pote.
Procure a alma antes recompor,
Porque não há no etéreo vil calote.
Passei um tempo enorme em correrias,
Incentivando a turba pra um motim.
Bem sei que tu, meu jovem, desconfias
De que estou profanando o teu festim.
Mas a verdade eu tenho de dizer,
Embora o coração se me confranja:
Enquanto era encarnado o meu poder
Dizia-me que a mente tudo arranja.
Nem mesmo agora, quando estou melhor,
Consigo alinhavar meus pensamentos:
Repito o que guardei tão-só de cor,
Para me impressionar por uns momentos.
Então me vejo aqui fazendo a trova,
Sentindo que talvez me seja bom
Pensar que o verso traga o que comprova
Que devo me manter no mesmo tom.
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