| In Min(as) memória
Olho
Vejo o quadro
E abro memórias
De Min(as)
No retrato antigo
Ouro Preto vivo
Vejo a moldura
Madeira lavrada
A mãos operárias
Feridas
Espoliadas
Vejo a moldura
Limite que estreita
As estradas possíveis
Esquadro
Que enquadra
E define
A existência finita
Vejo a moldura
Árvore morta
Veios à mostra
Registro de folhas
Verde escrita
No tempo perdida Olho
Vejo o vidro
Espelho de Min(as)
Remexendo lembranças
De sonhos ausentes
Sombras da infância
Na face
Disfarçada
Vejo no vidro
O brilho da luz
Luar de neon
No quarto fechado
Flor de cachoeiras
Submersas
Transformadas em frutos
Eletrizados
Vejo no vidro
A imagem da porta
Trancada
Às minhas costas
A noite nua
Face oculta
Dos mistérios
Do universo às escuras Olho
Vejo as pedras
Emergindo
Dos traços e tintas
E perscruto suas arestas
Sob meus pés saudosos
dos caminhos passados
Uma onda de amor
Recobre minhas pálpebras
E meu corpo sozinho
Em arrepio
Vejo as pedras
Penetro seus sulcos
E encontro a promessa
De sementes sufocadas
À espera do tempo
De ontem, de sempre
Relva agreste
Agredida
Aguardando a vida
Vejo as pedras e assisto
À cerimônia do arbítrio
No rastro de correntes
As marcas negras
De pés escravos
Nos passos presos
De corpos mártires
Andarilhos
No encalço
Da liberdade Olho
Vejo as torres
De igrejas
Pontiagudas
E escuto sinfonias
Que atravessam estrelas
Envolvendo galáxias
Caixas de música
Aprisionada
Comungando esperanças
De eternidade
Vejo as torres
Cumes citadinos
Anunciando segredos
Que os sinos denunciam
E desesperam
Em hora de adeus
Vejo as torres
E suspeito as tramas
De uma história
Erigida por palavras
E intenções
Que escondem essências
Renegadas
De desejos profanos
Sob vestes sagradas
Olho
Vejo o casario
Estruturado, barroco
Desafiando os anos
Enclausurando corpos
E destinos
Em rostos perplexos
Fotografias reveladas
Pelas janelas
Paisagem sedutora
De um jogo binário
Entre o de dentro
E o de fora Olho
Aqui me encontro
De frente, "nu" quadro
Ser e imagem
Estou lá, estou aqui?
Min(as) em mim
Espelho, miragem?
[Poema premiado com o 2º. lugar no concurso
de poesias da Cia. Vale do
Rio Doce(1994)]
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