O soneto na poesia de Vinicius de Moraes

Tal é a cristalina condensação verbal a que conseguiram chegar os sonetos incluídos nesta Antologia, que o leitor que acaso desconhecesse a totalidade da obra poética de Vinicius de Moraes poderia ser tentado a classificá-lo naquela familiação [sic] poética, de que nos fala T.S. Eliot, dos poetas "clássicos", por oposição aos "românticos". Não se deve confundir, porém, essas duas famílias, ou "raças" de poetas, com as escolas literárias e de poesia com os mesmos nomes.

Estariam, então, diante de um caso, talvez, único na poesia brasileira: o de um poeta que consegue ser "romântico" em sua obra poética menos nos sonetos, em que é um "clássico"? Talvez, seja esse o caso de alguns sonetos, de absoluta contenção verbal, de Augusto Frederico Schmidt, ou de Jorge de Lima; não me parece porém o caso de Vinicius de Moraes, pelas razões que pretendo, a seguir, arrolar.

Em primeiro lugar, porque justamente a Poesia e a Poética de Vinicius de Moraes são um caso típico da fidelidade e coerência poética talvez sui generis na poesia brasileira. Desde o seu aparecimento, com o livro O caminho para a distância, em 1933, simples poemas de 19 anos, até às últimas publicações, ou até o soneto lido pelo Corifeu, em Orfeu da Conceição, há uma linha de fidelidade a si mesmo e à sua própria estilística poética que apenas tende, por se achar o poeta em plena maturidade criadora, a se aperfeiçoar cada vez mais, e como corda estendida, a retesar-se.

Vinicius de Moraes já surgiu como um poeta moderno, pela estilística e estrutura de sua poesia, sem, contudo, jamais ter sido um modernista. Apareceu numa época em que o Modernismo tinha superado a sua primeira fase, mais destrutiva e negativa do que construtiva e, propriamente, criadora: a que já se denominou de Descoberta ou Ciclo da Terra. Estava-se em plena fase da Redescoberta da Pessoa e do Espírito, desde o aparecimento de Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura e da ruptura total com o período anterior, realizada, declarada e acintosamente, por Augusto Frederico Schmidt, com sua denúncia da poesia do pitoresco geográfico, social ou histórico.

Como Augusto Frederico Schmidt, que o antecedera, ele começou também pela volta da poesia ao sublime, que é a marca indiscutível do temperamento e da própria alma brasileira.

Filiando-se, indiretamente, ao movimento de "Restauração da Poesia em Cristo", operado, entre nós, por Murilo Mendes e Jorge de Lima, a partir de Tempo e eternidade, ele conseguiu no entanto permanecer fiel a si mesmo e ao élan e estilo inicial de sua poesia, onde sempre predominaram os temas do amor-paixão e as metáforas telúricas e cósmicas de um poeta sempre à procura de visão unitária do universo.

Classificam-se apenas os seus caminhos quando, à poesia ainda titubeante e deslumbrada pela vida dos 19 anos, sucedeu o livro dos 22, Forma e exegese, onde filtrava, sempre à maneira do poeta que tudo transfigura a seu modo, as leituras de Rimbaud, Dostoiewski, Gide, Ibsen, Péguy, e outros.

Havia nessa primeira fase uma visão do mundo inspirada em parte no misticismo cristão, fase essa que se encerrou com Ariana, a mulher, livro de 1936. Contudo, já vinha desde então demasiadamente carregada de cosmicidade e força telúrica, para não se adivinhar logo nela uma ganza bastante endurecida de misticismo panteísta.

Não resistiria a mais profunda concretização ou à humanização mais íntima a sua visão paradisíaca, reatualização apenas de sua infância de poeta, tão lendária, telúrica e "marinha" como sua meninice de ilhota, cheia de mar, de pescarias míticas e da alma simples e aventureira dos pescadores da Guanabara, que havia provado sempre o seu mundo de criança.

Na verdade, a sua visão cristã e evangélica do universo, que a partir de Ariana, a mulher, ia ser de todo abandonada, pela encarnação última e definitiva do Paraíso nesta terra - tão concretizada que se materializaria de todo - teria sido apenas uma nova etapa: a daquela descoberta fundamental de que nos fala São João Evangelista, numa de suas epístolas: "Se não amarmos ao próximo que vemos, como amaremos a Deus, que não vemos?!".

Foi essa, talvez, a única ruptura na linha de fidelidade do poeta a si mesmo: um dos caminhos conduziria, certamente, a uma verdadeira vivência mística de poesia, pelo aprofundamento de sua visão espiritualista e cristã do universo; o outro, o das metáforas telúricas e panteísticas, à solidez dos pés fincados na terra.

Dessa nova linha diretiva surgem, em 1938, os seus Novos poemas, em que a visão de Deus, se ainda existe é para se revelar logo diluída pela da mulher e do amor-paixão. Começava o poeta a se afastar, gradativamente, daquele aristocracismo inicial e visionário e do mundo mítico das metáforas marinhas, embora indo abeberar-se em outras fontes de influência popular, a sua sintaxe poética. Não era porém uma deserção; muito pelo contrário, significava outro progresso de sua estilística poética que, se, outrora, exprimia o mundo popular e mítico-marítimo de sua meninice, com metáforas telúricas e cósmicas de um aristocracismo poético, fortemente influenciado pelo paralelismo bíblico e, direta ou indiretamente, pelo estilo e poesia de Péguy? se isso se verificava então, - agora o poeta passa a exprimir o mundo, não menos mítico de sua poética de aguçadas antenas populares, com sintaxe poética mais clarividentemente popular.

Também a respeito do tema amor-paixão, a mesma linha de convivência e de retesamento da corda no estilo poético se pode constatar.

Assim, há no ensaio que publicou sobre Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes, com o título Dois poetas, o romancista Otávio de Faria, uma constatação que Manuel Bandeira perfilha a respeito do nosso poeta, em sua Apresentação da poesia brasileira. Dizia Otávio que o grande drama do poeta de O caminho para a distância e Forma e exegese, em face da mulher, era a eterna luta entre a carne e o espírito, em Vinicius de Moraes tipicamente caracterizada como a luta entre a "impossível pureza" e a "impureza inaceitável". Pois bem: há ainda hoje, ainda nos seus últimos poemas, senão uma reprodução que Péguy chamaria de "naturalmente cristã", desse luta, pelo menos, uma profunda e nem sempre muito bem velada nostalgia desse drama antigo, mesmo nos poemas mais realisticamente crus e sensuais dos últimos tempos. Nisso progrediu virilmente a sua poesia, ao perder aquela espécie de alumbramento adolescente na mesma descoberta de Eva que Adão realizou no Paraíso, segundo a teologia católica, sob a ação dos dons preternaturais, ou ainda em estado de graça (por mais que se malicie, grosseiramente, tal revelação da Mulher, obra-prima da Criação), mas que todos nós efetuamos quase sempre mergulhados no pecado. Por isso, em certos instantes do coito, ainda o mais pecaminoso, há muitas vezes uma aura de poesia, a lembrar aquela que outrora, na fase de Forma e exegese se via subjacente, ou reveladamente, em metáforas do poeta primitivo.

Pode-se aqui ou acolá, discordar dos seus caminhos, mas, só um sectarismo embrutecido poderia negar que ainda mesmo no aprofundamento do sentimento social primitivo de sua poesia houve um progresso. De certo, algumas vezes, um ou outro verso poderá nos dar a impressão de poesia de propaganda, quando se pretende apenas participante; mas também a poesia da primeira fase, quantas vezes, por mais imperfeitos serem os meios de expressão e figuração poética do seu mundo particular - o poeta não incidiu nos mesmos tropeços e falhas? Resta-nos o conhecimento do poeta e a certeza de que é bastante sincero e lúcido, em sua linha de fidelidade crescente a si mesmo e à sua poesia, para temermos que, por princípio, venha a descambar no abismo de uma poesia meramente apologética.

Os poetas, certamente, terão a sua parte na luta pela redenção deste mundo - fundamentalmente, porém, como poetas. E não acredito apenas que sua salvação venha a ser, um dia, obra dos poetas e da poesia; creio, firmemente, que nenhuma semente de redenção social, ou política, jamais fecunde se não encontrar o coração humano arado e umedecido pela poesia. Todo poeta verdadeiramente a caminho da plenitude de sua mensagem de poesia, deve ser conscientemente participante, mas, seria escusado adiantar: participante pela poesia. Nisso também consiste, e não apenas por ser Canto, a perene atualidade da Poesia.

O poeta é um libertador e restaurador não somente dos idiomas, mas, sobretudo, do destino de cada povo. A esse respeito todos os grandes poetas, ainda que por cima dos muros de cada uma de suas concepções da Cidade dos Homens, todos eles se encontram.
E assim vermos, um dos representantes mais típicos da literatura católica de participação, Georges Bernanos, em seu livro póstumo Le crépuscule des vieux, dizer da poesia: "Evidentemente, não está em seu poder redimir os povos que pretendem a sua morte, mas falar pacientemente ao coração humano, e despertar em homem essa virtude própria, incomunicável, essa coragem essencial que constitui a dignidade da pessoa humana. Ela é para cada homem esse banho de luz e de liberdade que revela a alguns de seus privilegiados os grandes espaços ainda virgens. É a solidão no meio da Cidade, a evasão entre as paredes da prisão e a porta aberta para o futuro. Nenhum doutrinatário poderia dizer, antes da hora, que renascença surgirá do caos; mas antes que os pensadores a reconheçam e definam, os poetas a terão cantado...". "O que pedimos hoje ao poeta não é nos propor modelos segundos os quais devamos refletir e solucionar as nossas dúvidas; mas é reconciliar-nos conosco mesmos, associar a sua arte às nossas decepções, a nossas desgraças, nossas revoltas, nossas esperanças. Que ele cante e antes de nos convencer, persuada-nos.".

Por sua vez, Pablo Neruda, falando há pouco, no Rio, de suas Odes elementales, dizia que elas "buscam ensinar, o que é um papel importante da poesia, que, por orgulho, poetas parecem ter esquecido. Segundo este conceito, a poesia deve ensinar ao homem. Uma lição que deve ser sempre a da separação. Estas palavras - o bem, a verdade, a beleza - foram ridicularizadas por uma literatura maldita, tenebrosa, mas, na verdade, elas são indestrutíveis, são herança do humanismo universal.".

Todas essas considerações dizem respeito intimamente, à perfeita compreensão da mensagem do poeta que temos diante de nós, nesta Antologia de Sonetos, diante dos olhos. Os seus sonetos, apesar dessa aparência de cristalização que os tornam, à primeira vista "clássicos", e em oposição a seus demais poemas, - "românticos" - têm sido sempre subordinados à mesma linha de fidelidade do poeta a si mesmo.

Verdade é que nem em todos os livros de sua obra poética encontramos sonetos. Lá está em O caminho para a distância, o soneto de adolescência, "Revolta", de uma inspiração moralista que lembra Raimundo Correia e a ele mesmo ou à sua influência poética se filiaria, não fosse aquele verso tão profundamente anti-Raimundo Correia: "O mundo é bom. O espaço é muito triste...".

No entanto, já vem outro soneto do mesmo livro, "Solidão", tão pessoal e diferente de tudo o que se fizera até então, que é bem um prenúncio da poesia clarividente e de melhor fase das Cinco elegias.

"Judeu-errante" é a retomada de velho e muito batido tema dos sonetistas brasileiros, mas com três ou quatro versos que bem valeram a pena a sua publicação.

Sobrevém então a grande fase da poesia do sublime, com Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher, em que as grandes metáforas cósmicas e telúricas de uma poesia, ao mesmo tempo - pretendendo-se formalmente de inspiração no paralelismo bíblico e na estilística de Charles Péguy - não deixam vez para o poema mais condensado, o gênero por excelência da contenção verbal: o soneto. Mas, em Novos poemas, livro de 1938, ele voltará. Bucólico e límpido com "Soneto de intimidade"; sob evocação da eterna Mulher, o soneto à "branca e pequenina lua"; com o lúbrico "Soneto de agosto"; sem no entanto ser "à maneira de" no "Soneto de Katherine Mansfield"; e com o "Soneto de contrição", início de toda uma bela série de sonetos de uma classicidade poucas vezes encontrada na poesia moderna brasileira. Sonetos esses que, algumas vezes, fazem lembrar os chamados "camonianos" da poesia brasileira, que não passam, no mais das vezes, de simples plágios, pastiches, ou exercícios de virtuosidade poética e que não deveriam merecer mais atenção que essa: dos curiosos de tais virtuosismos. Desde Gregório de Matos, Vicente de Carvalho, José Albano, até Guilherme de Almeida, aí estão eles a nos fazer dizer como certo grego ou romano, de que nos fala Múcio Leão, que, convidado a ouvir um homem que imitava com perfeição o rouxinol, recusou o convite, dizendo: - "Para que? Eu já ouvi o rouxinol...".

A beleza e a importância desses sonetos de Vinicius de Moraes consistem precisamente em que, sendo clássicos e, muitas vezes, quase à maneira antiga, no entanto por seu estilo, ou pelo novo espírito subjacente à sua poética, nada têm a ver com aquela espécie de plágios ou pastiches da chamada "Camoniana Brasileira". Como nada tem a ver aquele soneto de Augusto Frederico Schmidt: "O desespero de perder-te um dia".

No "Soneto de carta e mensagem", de novo a Mulher, quase o temor exclusivo dos seus sonetos, - pelo que toca mais de perto à classicidade do soneto primitivo, a cançoneta do "doce e galhardo amor", que passou de Dietaiuti e Davanzati a Guido, Dante e Petrarca: "Al cor gentile ripara sempre Amore...".

Segue-se o "Soneto de devoção", tão oposto na impureza do amor carnal ao amor-espírito de "Soneto de inspiração".

E logo após, o primeiro e verdadeiramente grande livro desse gênero, Poemas, sonetos e baladas, de 1946. Inicia-o o belo "Soneto de fidelidade"; seguem-lhe o de Carnaval, os quatro de meditação, "Barcarola", setissílabo, "Lápide de Sinhazinha Ferreira", de cinco sílabas, o decassílabo "Soneto de despedida", o da madrugada, o do maior amor, o epitáfio do sol, o soneto de Londres, o pequeno "Allegro", o decassílabo "Soneto de véspera", "Soneto a Otávio de Faria", "O escândalo da rosa", ao inverno e de quarta-feira de cinzas. E em sua Antologia poética, datada de 1949, lá estão outros, cada vez mais belos; o "Soneto de separação", gravado em disco Festa, com outros poemas, "Soneto do só", "A pera" e "Poética", dos menores de sua obra em sílabas e maiores em importância para a sua compreensão.

Acrescentam o poeta a todos eles e ao soneto dito pelo Corifeu em sua peça Orfeu da Conceição, outros, inéditos, e não menos belos, dos quais se pode depreender que Vinicius de Moraes não é apenas um poeta em plena maturidade, mas em ascensão da estilística e da inspiração poética.

Aos poucos, com o crescimento de sua obra poética, é que se vai percebendo melhor como cresce nela também, em beleza formal e em nova cristalização, o condensado e por isso mesmo difícil gênero poético. Tudo aquilo que ele soube dar, admiravelmente bem e felicíssimo, às suas elegias, aos seus poemas, aos pequenos "estudos", gênero poético particular que já assinalamos certa vez como de invenção de Ismael Nery; tudo o que soube ir buscar no soneto clássico, ou na ode, ou elegia antiga e a eles adaptar a moderna formalidade de sua poesia.

Na verdade, embora tendo surgido ainda em plena fase a verdadeira e injustificada idiossincrasia pelo soneto, contudo, Vinicius de Moraes não hesitou um só instante em admitir esse belo gênero poético. Para melhor se compreender, por assim dizer, a ousadia de sua atitude, basta lembrar aqui o rumor bastante sensacionalista que provocou em 1950, em São Paulo, conferência proferida por Jorge de Lima, no Clube de Poesia de lá. Oswald de Andrade que também vivia então, após a conferência do poeta de Invenção de Orfeu, pediu palavra e assumiu as dores dos poetas modernistas, assacando contra a utilização do soneto o mesmo arrazoado demolidor e tolo da Semana de Arte Moderna de 1922. O que disse de menos inofensivo contra os defensores do gênero clássico foi pretender aprisionar a poesia "em gaiola de ouro"!...

No entanto, mesmo entre os defensores momentâneos do gênero, a nenhum deles ocorreu que se faziam sonetos, clássicos e dos mais belos da língua portuguesa, desde a ruptura dos poetas modernos com o movimento modernista, superando-o para sempre, como, entre outros, e com maior felicidade, faziam-nos Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes.

Luiz Santa Cruz
(In.: Livro de sonetos, Rio de Janeiro: Editora de Portugal, 1957, p. I - XI)