Poesias Reunidas

Não importa o que verte
do medo
Não importa o que inerte
tremula
Nos versos mais insensatos
a gula
É a causa dos espantos!
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Cobrir teus desejos de prazer
Transbordar
Inevitavelmente
Viver nosso momento mais intenso
Murmurar
Gargalhar
Saber estar assim
E não temer o desfecho
Até que assim o seja
Amemo-nos infinitamente.
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Ah, se me bastasse somente viver
como seria plena a felicidade!
Mas tem o poder
a história deturpada
a necessidade de saber
os degraus a galgar, da escada.
Tem sempre o pensamento
a dor, o espanto, o malogro
tem a paz e o tormento
e as exigências do sogro. Tem a falta de amor
a missa, o padre, o pecado...
tem o frio e o calor
e o destino já marcado.

Porto Alegre, fevereiro de 1994.
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Agora, preciso organizar a vidinha
tenho que esquecer e me submeter
perdoar e tentar ser razoável
não ver e nem alarmar... sobreviver
ah, como é triste esse agora
como sofre a poesia e a vida
na antagonia deste tal mundo real
mas lustrarei minha carcaça
e gravarei meus dentes na história
com meus versos mais insanos
e sem graça.

Porto Alegre, julho de 1997.
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A tempestade ecoa vaidosa no exterior
um flautista louco apaga o trovão
e dispara notas estridentes no infinito
a vida é uma longa canção
onde divago meus acordes atônitos
desafinando a harmonia das coisas
quero agora o som das colinas
as águias e as florestas no meu sono
quero a serpente que surgia nos meus sonhos
na forma de um feio e enorme caminhão
selando o cair das águas Se por vaidade ou magia
ouvia o flautista e a tempestade partia.
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Quando finalmente branquearem meus cabelos
serei amante dos campos, das florestas e oceanos
observarei a tudo sobre meus passos decrépitos
sereno como um vôo, dócil feito uma neblina
compreenderei meus semelhantes,
amarei a algum deus e tomarei vinho em paz.

Pelotas, inverno de 1998.
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E mesmo que a vida
nos transforme em ínfimo instante
de recordações fugazes
toque de olhos nalguma rua...
és saudação de um desejo inefável
cárcere de livre arbítrio
história do tempo
feito ventre parindo
a vida acontecendo
e nós vomo árvores
que cedem ao vento
dançam brincam e se refastelam
sabendo da calmaria do por vir.

Primavera de 2001
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Do sangue jorravam vícios
fragmentos de antepassados
agonias e humilhações ancestrais
escorria calçada à fora
o sangue vermelho e sujo
de um deus desconhecido
carregado de uma vasta gama
de emoções e histórias sem fim
esvaia-se com tamanha liberdade
que coloria o crepúsculo aos convivas
todos os sonhos - realizáveis ou não
todas as horas de sobrevivência
todo chão e toda comida
toda urgência de uma vida
jorravam agonizantes ao espaço
e a energia da carcaça inerte
lançou-se sobre os tempos
errante e bela em sua magia infinita.

- Alguém me perguntou algo
preferi não responder.
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Não queira voar
isso é para os pássaros...
Que bobagem!!
O homem só voa quando ama
e o fato
é que o homem não sabe amar.

Desistas. É inútil!!
Apenas os sonhos são reais
o resto é ilusão fútil
meras cenas teatrais.
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E se dançássemos na madrugada
ao ritmo cardíaco das ondas
e escrevêssemos na areia azulada
o que jaz acima do sonho e do medo
mesmo que a maré apagasse
as estrelas guardariam segredo
do sangue inquieto, do vinho, do vento...
E o branco da lua sobre teu corpo
sacramentando o infinito em forma de sentimento.

Pelotas, dezembro de 2001.
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Reconheço o pulsar de todas as coisas que teimam em viver no que de morto há nessa estação no que se estende portas paredes ferros decréptos e olhares perdidos o pulsar de sonhos perenes de partidas e chegadas que o tempo não apagou mas que esquecido jaz nalgum canto do caminho.
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Eu com meus livros velhos minhas pilhas de discos meus panos meus danos meu instinto aguçado meus olhos alucinados meus prazeres meus afazeres minhas viagens no nada minha cara amassada meu pranto meu tanto meu bolço furado meu jeito de louco meu sarro meu cigarro e tudo mais que desejarem... descubro não passar de nada um mero e indivisível nada e nada me faria mais feliz.
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O que somos agora se não esse nos amontoarmos uns sobre os outros nessas edificações que partem rumo ao céu e parecem realmente atravessar o nada se não esse nos arrastar pateticamente por entre convivas roncos de animais metalizados gases nocivos e luzes frenéticas se não esse nos abismarmos cotidiano e amiúde em face de um novo sol que nos ameaça com a escuridão e o que seremos num outro agora se não a ressaca desse torpor que nos habita?
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Xícaras com asas quebradas copos decrépitos opalecentes radinhos de pilha sem pilhas chicletes velhos secos chinelos tortos (mortos) panelas velas e idéias gestos transloucados carrinhos de supermercado batatas amassadas com mel nas histórias que o vento contava e apenas os loucos ouviam...