Arca de Noé


Tudo começou com um livro lançado em 1970 pelo nosso querido Poetinha.
Nele, trinta e dois graciosos poemas pareciam só estar esperando o momento de serem musicados. Alguns chegaram a ser lançados em disco ainda na década de 70 - como A Casa -, mas foi através de um programa especial da TV Globo que as canções realmente se tornaram um sucesso.

O especial A Arca de Noé foi ao ar no Dia da Criança de 1980, dando espaço
para bichinhos de todos os tamanhos, assim como conquistava um público de todas as idades. Pulga, Coruja, Gato, Foca, Girafa.
Todos ganharam igualmente um ritmo encantador de se ouvir. E, com certeza, não foi só o leão que se encheu de vaidade ao ser cantado por "feras" como Chico Buarque, Eliz Regina, Milton Nascimento, MPB-4, Clara Nunes, Toquinho, Frenéticas, Tom Jobim. Melhores intérpretes não podiam haver. O sucesso da primeira Arca foi tanto que logo no ano seguinte, 1981, o segundo disco já estava sendo lançado com outros legítimos representantes do reino animal. Era a vez de Formiguinha, Pinguim, Galinha d'angola, Porquinho, Peru mostrarem seu 'estilo de vida'.



A Arca de Noé


Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.
E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca
Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.
Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé:
"Boa terra para plantar minhas vinhas!"
E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.
Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.
E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.
Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora a cabeça botam.
Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.
A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.
Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.
"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre — "Não!"
Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.
Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.
Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista
Na serra o arco-íris se esvai . . .
E . . . desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória
Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.

O Leão


Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês.

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda.
Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto.
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro.
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna.
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus que te fez ou não?
O salto do tigre é rápido
Como o raio; mas não há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o Leão dá.
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte.
Pois bem, se ele vê o Leão
Foge como um furacão.
Leão se esgueirando, à espera
Da passagem de outra fera . . .
Vem o tigre; como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo.
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão.
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

O Pato


Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o Pato
Para ver o que é que há.
O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.

A Galinha d'Angola


Coitada
Da galinha-
D'Angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não pára
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:
— "Tou fraca!
Tou fraca!"

O Peru


Glu! Glu! Glu!
Abram alas pro Peru!
O Peru foi a passeio
Pensando que era pavão
Tico-tico riu-se tanto
Que morreu de congestão.
O Peru dança de roda
Numa roda de carvão
Quando acaba fica tonto
De quase cair no chão.


A Casa


Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero

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A Arca de Noé
1980 - Polygram/Ariola


A arca de Noé
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Chico Buarque / Milton Nascimento

O pato

(Toquinho - Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: MPB-4

A corujinha
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Elis Regina

A foca
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Alceu Valença

As abelhas
(Bacalov - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Moraes Moreira

A pulga
(Vinicius de Moraes)
Interpretação: Bebel Gilberto

Aula de piano
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Frenéticas

A porta
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Fábio Jr.

A casa
(Vinicius de Moraes)
Interpretação: Boca Livre

São Francisco
(Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: Ney Matogrosso

O gato
(Bacalov - Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Marina Lima

O relógio
(Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: Walter Franco

Menininha

(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Toquinho

Final
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Orquestra


A Arca de Noé II
1981 - Polygram



Abertura - A Arca de Noé
(Vinicius de Moraes)
Interpretação: Dionísio Azevedo

O leão (Inspirado em William Blake)
(Fagner - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Fagner

O pinguim
(Toquinho - Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: Toquinho

O pintinho
(Gilda Mattoso - Pipo Caruso - Sergio Bardotti - Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Frenéticas

A cachorrinha
(Tom Jobim - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Tom Jobim

O girassol
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Jane Duboc

O ar (O vento)
(E.Bacalov - Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Boca Livre / Vinicius de Moraes

O peru
(Toquinho - Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: Elba Ramalho

O porquinho
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Grande Othelo

A galinha d'angola
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Ney Matogrosso

A formiga
(Vinicius de Moraes - Paulo Soledade)
Interpretação: Clara Nunes

Os bichinhos e o homem
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Céu da Boca

O filho que eu quero ter
(Toquinho - Vinicius de Moraes)
Interpretação: Paulinho da Viola

 

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