Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pema minha vida
Um astro doido a sonhas
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que os outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro-
Não me acho no que projeto.

Mário de Sá-Carneiro

Quem Sabe

Quem sabe, poderia eu levar
Horas e horas diante de teus olhos
Cantaria, quem sabe, uma canção
E entre lágrimas, forçaria um sorriso
Quem sabe, nem tudo eu faria
Deixaria um pedaço de lembranças
Um resto de sonho na gaveta
Armaria uma situação qualquer
Para te dizer, quem sabe,
Que nem mesmo eu sei.