| História do Bicho-Papão
Tenho uma sobrinhazinha chamada Alice, que mal fez três anos, e que parece toda feita de doçura (e de safadeza). Outro dia ela perguntou: - Mãe, o Bush sabe onde a gente mora? - Não, não sabe. - Mas a gente sabe onde o Bush mora, né, mãe? - Sim, nós sabemos. Por que? - Porque se nós quisermos, nós podemos ir lá e matar o Bush. Mas como ele não sabe onde a gente mora, ele não pode vir aqui e matar a gente. E se ele vier, o vovô Ézio tem uma espingarda, né, mãe? Quanta diferença da minha tenra infância, quando a minha grande amargura era por conta dos maus-tratos que o Patinho Feio recebia dos cisnes! Daí contei esta história para a minha amiga Ivone, que tem um priminho que costuma levar jogos de computador para jogar no computador dela. Confesso que sou uma total ignorante em jogos de computador, mas a Ivone me disse que o priminho dela luta e luta com enorme desespero diante da tela. Outro dia ela perguntou para ele: - Por que é que tu lutas tanto assim? Aí a resposta inesperada: - Porque eu tenho que matar os estadunidenses! Ela, admirada, quis saber mais: - Mas por que queres matá-los? - Porque eu tenho que aprender a me defender. Então tenho que matá-los. Então lembrei de mais uma amargura da minha infância, das maldades que a madrasta fazia com a Gata Borralheira. Acho que é bem diferente a gente chorar por causa de uma Gata Borralheira que acaba virando Cinderela, ou por causa de um Patinho Feio que acaba virando Cisne. As nossas crianças de hoje se assustam e temem violência de bombas que transformam crianças iguais a elas em pequenos seres ensangüentados e mortos, sem nenhuma das glórias mágicas das Cinderelas e dos Cisnes. Sabe-se lá que medos que corroem a pequenina alma da nossa Alice, para ela se preocupar em saber se o Bush sabe onde ela mora! E vivemos cá tão longe da Palestina, do Iraque... Desde que Alice nasceu, diversas pessoas morreram em nossa família, pessoas que morreram de mortes dignas, rodeadas de entes queridos, e que tiveram velórios cheios de gente amiga, e enterros cheios de dignidade, mas Alice não chegou a ver nenhum desses mortos. O morto mais próximo dela é o Nestor, um peixinho que ela tinha e que um dia amanheceu morto. Ela sempre se lembra do Nestor. Acho que um pequeno morto como Nestor é uma boa carga para uma menininha de três anos. No entanto, ela faz perguntas sobre poder matar Bush, e teme que Bush a encontre. Que mundo é este em que um Bicho-Papão lá de outro hemisfério consegue aterrorizar crianças que apenas agora começam a espiar para o mundo? Que sementes que aquele Bicho-Papão está plantando por todos os cantos, e que resultam em medos e angústias até nas pequenas Alices que vivem a tantos milhares de quilômetros de distância dele? O Bicho-Papão que se cuide! Toda essa criançada, qualquer dia, vai ser grande!
Blumenau, 29 de Maio de 2003.
Urda Alice Klueger |