| Saudades do Henfil Eu era uma adolescente cheia de medo (professores e amigos da gente às vezes sumiam, e eram torturados, e às vezes presos em porões de navios), quando o governo da Ditadura criou uma frase de efeito: "Brasil, ame-o ou deixe-o!" . Penso que isso foi lá pelo governo Médici, e providenciaram-se adesivos com a frase para se colocar nos poucos automóveis que então havia, e havia gente que embarcou na coisa e pronunciava a frase de peito estufado, certíssima das certezas que o nosso exército aprendia lá com o Grande Irmão do Norte, o que se resumia, principalmente, em odiar uma coisa chamada Comunismo, que pouquíssimas pessoas sabiam, realmente, o que era. Então alguém foi lá e completou a frase: "Brasil, ame-o ou deixe-o - o último a sair apague as luzes do Galeão.". (Na época, o Galeão era o nosso maior aeroporto.) Eu andei cavoucando nas cabeças dos meus amigos, aqui, nos últimos dias, para ver se alguém lembrava de quem era a complementação da frase, mas ninguém se lembra direito: quase todo o mundo acha que foi do Henfil, mas ninguém têm certeza - o que a maioria parece ter certeza é de que foi de alguém do Pasquim, aquele jornal que reunia os mais corajosos profissionais do país, e que, na época, era o único a ter coragem de dizer as verdades e desafiar a Ditadura. Para os mais jovens eu explico: o Pasquim saía esporadicamente, quando não era apreendido ou proibido de sair, e muitas vezes os seus jornalistas acabavam indo parar na cadeia, tamanha sua ousadia naqueles tempos de medo. Quando aparecia o Pasquim, a gente comprava correndo e ia ler escondido, passando as folhas lidas por baixo dos panos para as outras pessoas, bem como adolescentes fazem quando lêem pornografia em sala de aula, escondendo-a debaixo das carteiras do colégio. O Henfil fazia parte do Pasquim, claro. Então houve um tempo em que o Pasquim era o nosso elo com a verdade, era um jornal luminoso que deixava esperanças acesas em nós, era a única estrela que brilhava nos anos de chumbo, e a gente nunca irá esquecer AQUELE Pasquim. Porque o Pasquim anda por aí de novo, e recentemente esteve em Blumenau, quer dizer, aqueles nossos antigos ídolos estiveram em Blumenau, e se locupletaram de marrecos recheados e uísque, e escreveram coisas maravilhosas sobre esta minha cidade, como o fato de ela ser perfeita, não ter favelas, não ter problemas, não ter pobreza. - Sem favelas? - perguntei ao pessoal do Pasquim, quando estive com ele. - De onde vocês buscaram isto? - Mas tem favelas? Em que bairro? Disse-lhes para olhar em torno. Atrás de cada morro daqueles se escondia uma favela. Pus-me à disposição para levá-los a alguma favela naquele instante, se quisessem. Eles me olharam como importantes jornalistas olham para pequenas e incomodativas escritoras de província e não quiseram ir, é claro. Estavam intoxicados de marreco recheado e de generosas doses de uísque. Não tinham tempo para coisas sem importância, como favelas. Aí me deu a maior saudade do Henfil, do tempo do Henfil, dum Henfil que teve até que ir para um auto-exílio por falar demasiadas verdades. Descobri que o Pasquim já não é mais aquele jornal que trouxe a luz para a minha juventude, que agora é um jornal que se vende facilmente por trinta marrecos. Pela primeira vez, quase fiquei contente ao lembrar que o Henfil tinha partido, que não estava ali para ver a nova verdade. Eu fico pensando, Henfil, se você estivesse aqui hoje, se também estaria trocando a dignidade por marrecos recheados, ou se estaria a apoiar a Campanha da Fome, junto com seu irmão Betinho. Saudades de você, Henfil! Blumenau, 05 de Junho de 2003. Urda Alice Klueger |