"Posso contar com sua colaboração?"

Tocou o telefone. É sempre aquela correira doida, larga-se o que tem na mão, desvia-se dos móveis correndo, para atender o aparelho que grita.

No quarto ainda escuro, porque não deu tempo de acender a luz, saúdo o desconhecido lá do outro lado da linha. Responde uma vozinha fraca, suave, falando como quem não quer atrapalhar, mas que chama a atenção para ser ouvida:

- Aqui é do Lar Santa Amelinha - (ou algo do gênero) -, amanhã nós estaremos com uma campanha para arrecadar fundos para os nossos ceguinhos, posso contar com sua colaboração?

Tudo dito numa tacada só, sem nem deixar um tempinho para eu entender o que estava acontecendo. Pesquei umas poucas palavras: campanha, colaboração, ceguinhos... Mas antes que elas construíssem alguma idéia na minha cabeça, escapou um sim. Sabe quando você diz alguma coisa, e quando percebe o que saiu, fecha os olhos e tem vontade de voltar a fita?

- Sim? Que bom! E com quanto você poderia ajudar?

Balbuciei algo como "eu não sei", que nem eu entendi. E agora, o que eu faço? Só nesse "com quanto" é que eu percebi que entrava dinheiro na jogada. Poxa, colaboração podia ser qualquer coisa, papel usado para reciclagem, roupa que não me servisse mais, oração, trabalho voluntário, sei lá. Mas dinheiro? Teria que dar dinheiro, minha carteira vazia.

Ela percebeu antes que eu minha hesitação:

- Dez reais, pode ser?

- Ah?! Dez? Ah, pode... - suspirei. O que eu ia fazer? Menos que dez também era sacanagem. E eu não podia voltar atrás, já tinha me comprometido a colaborar.

- Tudo bem, só confirma pra mim seu endereço, ela falou. Confirmei o endereço. Mas tinha que dar endereço? Vinha alguém até aqui em casa. E eu teria que enfrentar mais uma pessoa? Com que cara eu iria até a porta, entregar a notinha vermelha? E se pedissem mais alguma coisa?

- Confirma o telefone pra mim também.

Eu me segurei para não dizer "mas você ligou pra cá como?". Tenho mania de fazer isso, mostrar o ridículo do óbvio ululante, apontar a burrice inata de cada um. E confirmei o telefone.

- Tá, amanhã então alguém vai estar indo até a sua casa para recolher essa contribuição.

Eu tinha que reagir, falar alguma coisa. Era só ligar em casa que eu dava dinheiro a quem pedisse?

- Mas pra que quié essa contribuição?

De novo, sem nem parar pra respirar:

- O Lar Santa Amelinha é uma instituição que cuida de ceguinhos, e essa contribuição vai servir pra compra de aparelhos pro nosso hospital. Como esses equipamentos são muito caros, a gente...

Outra vez eu não entendi direito o que ela falou, a vozinha ficou fraca demais.

Por que será que a gente tem mania de falar "ceguinho"? Será que usando no diminutivo, o defeito fica menor, ou passa a ter menos importância?

- Que horas então a pessoa pode estar passando na sua casa? De manhã?

Tinha horário? Então me livrei dessa:

- Olha, de manhã não vai ter ninguém em casa.

- À tarde, então?

- Não sei se eu estarei à tarde...

- Que horas você estará com certeza?

- Ah, só depois das seis, mas não sei se...

- Depois das seis? Ah...

Esse "ah" teve um certo desapontamento embutido. Já me preparava para desligar. Mas a moça era boa no trabalho dela:

- Você não podia deixar com algum vizinho?

- Vizinho? Posso... - pensei, já imaginando dar calote. Mas, outra vez, ela foi mais esperta:

- Só me indica qual vizinho você vai deixar o dinheiro. O da direita, o da esquerda, o da frente...

- Sabe que é, aqui é uma vila.

- Ah, tá... Qual o número da casa do vizinho?

- 10...

Tudo acertado, então. Ela me abençoou, me agradeceu imensamente. E eu com raiva de mim mesmo, "perdi dez reais". Como eu podia ser tão manipulável assim? Nem coração mole era, era medo de dizer não...

E eu me peguei celebrando meu próprio egoísmo... Só que já são quatro da tarde (eu estive em casa à tarde sim. A tarde toda.), e ninguém apareceu. Agora como eu vou dar os dez reais para os ceguinhos?

Tiago Chiavegatti