Faltando Luz

De repente, no meio do seu sonho, apareceu um barulho de porta abrindo. Sabe como é, o som seco da maçaneta trazendo a lingüeta para dentro, e as dobradiças reclamando por terem de sair de posição:

- Carlos, faltou luz.

Faltou luz, e dormiram relógios, rádio-relógios e despertadores, porque coisa funcionando na base da corda já é peça de museu há tempos.

- Que horas são?, perguntou, com a voz embolada de sono, debaixo das cobertas naquela manhã-madrugada de junho.

- Seis e meia, acho.

Seis e meia. Já estava atrasado, e já que estava atrasado mesmo, ia curtir mais um pouquinho o calor dos cobertores. "Hoje não tem nada de importante de manhã", pensou, e se entregou ao prazer de ceder à preguiça do corpo.

Ficou mais um pouco olhando o escuro, reunindo forças para deixar a cama. Estava frio, é horrível sair da cama no frio. É como comer só um pedacinho do doce que adora e não poder devorar o resto. "Essa é uma metáfora horrível", pensou, e abriu os olhos.

Mas era preciso levantar. Pensou no banho que tomava todas as manhãs. Era rito obrigatório, o dia não começava sem o ânimo que a água quente lhe dava, a vontade de gritar que aparecia do nada assim que começava a se enxugar, a sensação de estar pronto e renovado, como se o sabão levasse com a sujeira o cansaço e a indisposição.

E aí lembrou que não tinha luz, não tinha água quente. E agora? Banho frio ou sem banho? Enfrentar a água que parecia que ia congelar no ar, no meio do caminho, ou sair de casa de mau-humor, cabelo bagunçado, desanimado e chutando o primeiro que aparecesse na frente?

Decidiu que não podia ficar sem o banho. Seria isso um vício? Devia ser, mas pelo menos era saudável. Ou não?

Enquanto tremia de frio, com os pêlos do corpo todo se arrepiando, ligou o chuveiro. Entrou no box e colocou a mão debaixo da água. Estava gelada demais.

O jeito era se molhando aos poucos. Deixou a mão em forma de concha recolher a água e foi molhando um pouco do corpo de cada vez. Primeiro os braços, e foi indo pelo rosto, nuca.... Quando molhou o peito quase ficou sem ar. Por que quando a água estava muito fria ficava difícil de respirar?

Foi se acostumando àquele gelo todo. Resolveu colocar-se inteiro debaixo do chuveiro. Quase desistiu depois da primeira metade, mas antes que o reflexo o fizesse recuar ele mandou tudo para debaixo d'água. Soltou um grito para espantar o frio.

A casa inteira era sombra, mas sem que Deus nenhum dissesse "haja luz!", houve luz, e os relógios se fizeram vaga-lumes, e os interruptores ligados por hábito deixaram que as lâmpadas se acendessem.

O chuveiro fez um pequeno barulho, soltou faíscas. E ele morreu sem ver a luz nem sentir a água quente que lhe acariciava o corpo.

Tiago Chiavegatti