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O Sociófobo Às vezes resolvia entrar em choque com o resto do mundo. É algo completamente inútil, masoquista e bobo, puro desperdício de energia. Talvez fosse só pelo gostinho de se rebelar e ficar contra todos, ou então só para exercitar a teimosia; quem sabe pelo egoísmo de querer tudo ao seu jeito? O fato é que ele se irritava com as convenções sociais, aquelas besteirinhas do cotidiano. - Já viu coisa mais sem sentido do que aquele "bom dia"? Você encontra com aquele cara que você odeia, mas você deseja um bom dia pro sujeito - reclamava. Tinha verdadeiro ódio de todo dia encontrar as mesmas pessoas e ser obrigado a cumprimentá-las uma por uma. Ainda por cima torcer para não esquecer ninguém: - Ele nem me disse oi hoje. Será que está chateado comigo? - perguntava uma. - Que nada, é mal-educado mesmo, não cumprimenta ninguém. Nem sequer olha na nossa cara - respondia outro. Um assunto que todos adoravam, e que ele abominava: a sua irmã. Todos a amavam muito, tinha muitos amigos. Piorou quando ela passou seis meses no exterior, aprendendo inglês. Queriam notícias, relatos, boletins, novidades: - E a Mirtes, como vai? Tá gostando de lá? - Deve estar, não sei. - Como não sabe? Você não fala com ela? - Não. - Como não? - pela segunda vez, ainda mais espantado com a falta amor fraterno. - Não falo, não tenho nada pra contar pra ela. - E não sente saudades? - Não - respondia secamente. Ficava aquela sensação de "oh" no ar, aquela coisa desagradável, uma repovação muda. "Como ele pode ser assim tão frio?", perguntavam-se todos. Mas a via crucis eram os aniversários. - Aniversário - dizia ele - foi a invenção mais estúpida do homem. Aquilo é pura ilusão, só pra esquecer que a cada ano a morte chega mais perto. E como pensar assim num mundo onde as crianças aprendem a contar usando os dias que faltam para o próximo bolo de chocolate, brigadeiro, presentes, tudo sem esquecer aquela tia velha, que só ressurge da tumba nessas ocasiões para apertar nossas bochechas e dizer que estamos crescidos? No aniversário dele, todos se divertiam, menos ele. O despertar marcava o começo da chateação. Quando colocava o pé para fora do quarto, esbarrava com a mãe e a irmã com os braços abertos para os abraços e felicitações. Em alguns anos, tentou ficar na cama até tarde. Não adiantou, elas vinham com ainda mais entusiasmo, pulavam na cama, arrancavam-lhe as cobertas e acabavam com o sonho de não ter aniversário. A preocupação seguinte era evitar que fosse dada uma festa. Felizmente, nunca pensaram em preparar-lhe uma festa surpresa. Apertaria o pescoço de cada um que ficara fingindo não existir, no escuro? Ou simplesmente daria as costas e fugiria, deixando-os comemorar o desapontamento. Não sabia, mas precisava evitar a festa. Desde o começo da semana, bateu o pé e recusou até o singelo "vamos fazer só um bolinho". Claro, porque com os bolinhos apareciam os docinhos, salgadinhos, e toda sorte de diminutivos comestíveis, acompanhados de parentes intragáveis. No entanto, nunca obteve êxito. Nas vezes em que chegou mais perto, apareceu o pai com os avós às nove da noite. Trazendo o bolo, claro. E só lhe restava, ano após ano, colocar o sorriso mais branco que encontrava entre os amarelos, e agradecer, de preferência passando grande emoção, a presença de todos. Enfim, a vida era um saco de pequenas aporrinhações. Inevitáveis, ainda por cima. Decididamente, um saco. E enquanto esperava o sono chegar, deitado no escuro e olhando o teto do quarto, sempre dizia: - Puta merda, como é bom viver! Tiago Chiavegatti |