A serpente

Tivesse eu asas, como as tuas! - Fora,
Em antes de falar,
Rasgando o céu por esse espaço afora,
Às nuvens mais altívolas pairar;
E em torno perscrutar
O que vai pelo mundo.
Mas, não as tenha embora,
Eu me erguerei do fundo
Da lama, para ver
O universo ao nascer.
É esta, é esta a árvore da vida!
Em volta do seu tronco e dos seus ramos
Vou enroscar-me, estreitamente unida.
Agora, assim, vejamos
D'este universo a imagem.
Com a minha cuada imensa o chão rastejo,
Com mil cabeças erriçadas beijo
O vasto céu por cima da folhagem;
Com mil olhos perscruto a terra toda;
Com mil línguas dardejo
Atro veneno em roda.
Mas em verdade nada mais eu vejo
Que altas montanhas, que em anéis ondeiam,
Mil rios, que serpeiam,
Sob as florestas deslizando lentos,
E o corcel Semeheu que, enfurecido,
Pelas garras dos djins corre pungido,
A argêntea cauda sacudindo aos ventos.
Ei-lo muda de cor a cada instante,
Já pálido, já negro, já brilhante,
Já revestindo o azul do céu sereno,
Já da cor do veneno
Que me escorre da boca fumegante.
Causa piedade e dó.

( A comédia dos deuses, 1887)