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O oceano, a serpente, leviatã, vinateina, o peixe
macár
Basta, Senhor, de acumular as vagas
Sobre o meu largo peito
Que com o líquido peso imenso esmagas.
Como de espaço estreito,
A tua urna cheia já despede,
Pela borda escorrendo as gotas de ouro.
É cheio o bebedouro:
Quem virá, Senhor, matar a sede
Teu rebanho ofegante?
- Tu com o sopro me abates;
Tu flagelas-me os flancos; tu me feres
A ilharga fumegante;
E nem há mais que esperes
Que, à pressão, dos agudos acicates,
Possa correr mais rápido; e precipite,
Cedendo à força tua,
Lamber com a vaga ao céu o azul limite,
Que, quanto mais avanço, mais recua.
Em vão do abismo o fundo pulso e cavo
Com as patas orvalhosas;
Em vão, túrbido e bravo,
Longe sacudo as crinas espumosas;
Em vão remoinho, cheio de furor:
- Onde vamos, Senhor?
Há muito tempo que amontôo e rolo,
Pelo caminho, as ondas em voragem;
E não tenho o consolo
De ver jamais o termo da viagem.
Viverei a fitar, sempre, isolado,
Na minha imensidade, a própria imagem?
Nunca me será dado
Escutar outra voz
Ressoar-me no ouvido?
- Outro som, que não seja o meu rugido
Horríssono e feroz?
Ontem, quando festivo
Do nascente luar o raio intenso
Roçou-me o cimo ondeiante e fugitivo,
Senti um gozo imenso.
Pareceu-me, Senhor, que me afagava
A tua mão com lânguidas carícias;
Correu-me o dorso um trêmulo arrepio,
Quando julguei-a ver, que me enlaçava
A colo um áureo fio;
E penetrado de íntimas delícias
Fiquei-me palpitando,
Como se uma asa elétrica, espalmada,
Passasse-me, voando,
Por sobre a crina crespa e desgrenhada;
Mas tanto que tocou-me o ansioso peito,
Vi o raio saltar, todo desfeito,
Em fofa espuma, rórida e nevada.
Ah! Se me fosse deparada alguma
Amiga praia, - um mundo que não eu,
N'essa praia eu faria o leito meu,
E todo o fabricara de alva espuma,
Da poeira as pérolas mais finas,
De rútilos cristais,
Raízes de alga, conchas purpurinas,
E vistosos corais
Minhas águas veria
Brilharem no meu leito, ébrias de amor,
Como o gládio, que pende e que irradia
Do teu cinto, Senhor!
LEVIATÃ, lançando-se do abismo
Quem do abismo arremessou-me?
Quem de escamas cintilantes
O rude corpo forrou-me?
Que mão potente rasgou-me
As mandíbulas hiantes?
A onda inquieta rasteja
Nas praias a murmurar;
O vento surdo rouqueja,
Nos penedos, ao passar;
Dormem as ilhas nas brumas;
Fervem cândidas espumas
No crespo dorso do mar.
Longe, as vagas se encapelam
Em montes alevantados,
E túrbidos se atropelam
Como famintas ninhadas
De crocodilos, que lutam
- Como que a posse disputam
Do regaço maternal,
E à doce luz virginal
Que esparge em torno à manhã
Brilham as cristas doiradas
Das montanhas elevadas,
Como escamas trituradas
Nos dentes de Leviatã.
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