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Isabor
A vida me é um circo maravilhosamente colorido, onde me deleito como palhaço.
Grandes sapatões de enormes buracos em suas solas. Uma cabeleira de fogo em dois
tufos ao lado da careca lustrosa.
A enorme bola que é meu nariz vermelho, lembra-me sempre, que esse mundo gira, gira, e gira sem
parar.
Que por isso mesmo, medo algum me ameaça, ou violência alguma me toca.
Sei meu ínfimo papel nessa grandiosa peça da tragicomédia humana.
Sei onde estar, a hora e tempo, sob as luzes ou na mansa escuridão por detrás dos holofotes que
criam imensas esferas de luz para os trapezistas em seus mirabolantes vôos por sobre a rede.
Sei que estar vivo é belo.
Sei que estar aqui e agora, também é belo.
Sei que poder esperar-te por sob a lua que nascera também é belo.
Pois será lá, a margem do rio de minha aldeia, que sentado em silencio, comporei odes e
poemas enlouquecidos de amor e de dor.
Amor por te ter assim tão perto no céu de minha aldeia.
Dor por te saber, sentir e viver na praia distante e ensolarada...
Vês, percebes porque sou um palhaço?
É a dor, a frustração, de saber-te ausente desse espetáculo em que me faço mais autentico,
horas antes que tu despertes de teus sonhos.
Vivo em um tempo que com a noite próxima me transformo no lustroso e negro lobo da aldeia.
Mantendo em meus devaneios e sonhos, a esperança, o inaudito desejo de tocar-te de leve as asas
douradas em teu vôo matutino...
Isabor.
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