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A criação
Já do tempo voraz se divisava
A férrea, curva foice reluzindo;
Desapiedado, umas vezes meneava,
Outras vezes ao longe desferindo,
Em torno de si mesmo a agitava;
Quando o Numen potente
A cujo aceno o tempo audaz nascera,
Fez retumbar a voz, que tudo impera;
Os abismos do nada estremeceram
E ao Deus grande e clemente
Os possíveis tremendo obedeceram:
Atônito levanta a escura frente
O caos rodeado
De confusão e horror: inda a beleza
Com pincel variado
Não ornava a recente natureza.
Tranqüilas jazendo,
As ondas dormiam
Que a face cobriam
Do caos horrendo.
Ao leve soprar
De um zéfiro brando
Vida vai cobrando
O lânguido mar:
Do vasto Oceano
No seio se encerra;
E a mádida terra
Deixa respirar.
A luz resplandeceu, e o firmamento
Que em denegridas sombras se envolvia,
Mostrou formoso o seu soberbo assento:
De graças e esplendor se revestia
O majestoso dia;
Quando cheio de pompa e luzimento,
O sol rompeu nos ares, dardejando
De animante calor celestes raios.
Enternecido, triste sentimento
Mágoa o rosto lindo
Da noite descontente,
Que a ausência de Febo luminoso
Assim terna anuncia:
Entanto desferindo
Escassa luz em trono tenebroso,
Sobre nuvens o cetro reclinando,
A luz dos céus e terras alumia.
Fulgentes estrelas
Nos céus resplandecem;
Na terra verdecem
Mil árvores belas.
Os montes erguidos
Os vales retumbam
Ao som dos rugidos,
Dos feros leões.
Nas asas sustidas,
As aves revoam:
Nos ares entoam
Sonoras canções.
Ó terra! Ó céus! Ó muda natureza!
Transbordai de alegria: triunfante
Das entranhas do nada surge o homem:
Eis aparece; e a cândida beleza
O sisudo semblante lhe enobrece.
Seu majestoso porte.
Soberano do mundo o patenteia.
Gravada mostra n'alma a augusta imagem
Do Senhor adorável
Que o imenso universo senhoreia:
De sua pura carne se teceram
As meigas graças, que no rosto amável,
Da mulher carinhosa,
Com suave doçura resplandecem.
Apenas o divisa transportado,
Tu és o meu prazer, que novo encanto
Eu vejo lhe dizia: e arrebatado
Em delírio amoroso,
Mil vezes em seus braços a apertava,
E todo o extenso mundo,
Por ela só, deixar pouco julgava
Qual rosa engraçada
Que zéfiro adora,
Terna e delicada,
Enredo de Flora:
Assim é mimosa
E linda a mulher
E o homem se goza
Em se lhe render.
Qual grita entre as feras
Leão rugidor,
Derramando em torno
Gélido terror:
Tal se mostra o homem
Sobre toda a terra;
Tudo rende e aterra
Em arte e valor.
O mundo era criado, e transluzia
Em toda parte o braço onipotente,
Que fizera raiar a noite e o dia.
Da frígida semente
Outra vez novo ser se produzia,
Animada ao calor do sol ardente:
Tudo em vida fervendo parecia.
Virtude de crescer, multiplicar-se,
O animal que à fera
Ímpia morte soubera sujeitar-se.
Então o Criador arrebatado
Em divino prazer, almo, infinito,
Olhou dos céus o livro sublimado
Que com as suas mãos havia escrito,
E assim falou: ouvi cheios de susto,
Mortais, a voz do Deus imenso e justo.
Os céus entoam
Minha grandeza,
Os seres todos
Juntos pregoam,
Por vários modos,
Do eterno ser
O incomparável,
Grande, inefável,
Alto poder.
A minha glória,
Homem, respeita;
Rendido, aceita
Meu mandamento:
Traze à memória
Que o firmamento
Por ti criei;
Que o mar e a terra,
E o que ela encerra
Tudo te dei.
Sem me adorares
Com vivo amor,
E me ofertares
Santo temor;
Por mim o juro,
Minha presença
Ao peito puro
Eu mostrarei,
Em recompensa
Tua serei.
Mas se quebrares
O meu preceito,
E sem respeito,
O profanares,
Da morte fera
A mão severa
Tu sentirás.
E em vão gemendo,
No averno horrendo,
Me chamarás.
Souza Caldas
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