Do leito estendido no ar

I

"Aos papéis!" E mergulhava na montanha de folhas. "Muito a organizar".

Textos que consultava, os que consultaria, consultara, consultará. Conjugaria todos os tempos verbais quem fosse imiscuir-se neles, mas nada perceberia. Seu íntimo ali estava, misturado a faturas pagas, bilhetes, correspondência nunca lida, rascunhos.

Só os rascunhos lhe tomavam grande tempo na arrumação. Lia-os, a cada vez, e não lhes dava outra sentença: borradores. Jamais seriam elevados a qualquer categoria em sua complicada catalogação caseira.

Trocava o CD a cada alteração de humor provocada pelo trabalho simples e rotineiro. Música erudita, popular, nacional e estrangeira. Lavava louça com Mozart e roupa com Ravel. A arrumação era o que requeria maior repertório, dependia de cada momento. Conviviam harmonicamente Cesária Évora, Pablo Milanez e Tom Jobim com Tarrega, Couperin e Cantos Gregorianos. Só ela compreendia, mas não lhe importava.

Gostava de cantar ao arrumar a casa. E dançava com a vassoura e com o cachorro, ao som dos Paralamas do Sucesso, Bob Marley, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas os papéis... Esse era mais que um trabalho rotineiro. Havia algo além.

"Não há só prazeres", cogitava. "Há que trabalhar. Há outras coisa além. Além do afeto, além do amor, além da dor". E seguia se perguntando se estivera equivocada ao aliar o trabalho ao prazer: jamais gostara de fazer o que não lhe agradava. Era trabalhadeira, não havia desafio que não abraçasse com uma energia que surpreendia. E sempre encontrava alguma satisfação, fosse num simples fazer das camas. Aprendera com Thitch Nat Hanh a meditar lavando a louça... e suspeitava que pensara demasiado.

II

Da rua vêm sons aos quais se acostumou, não mais passíveis de serem responsabilizados por qualquer distração. A rede tampouco o é. Leito estendido no ar, há muito fora abandonado. Lembra-se com alguma saudade das noites de lua cheia em junho distante, quando nela se acolhia. Maravilhosos luares observara então, quieta em seu canto. Ao lado uma garrafa com a água do coco a faz sorrir. Uma rede, água de coco, nenhum coqueiro ou som do mar. Nostalgia.

Na imensa mesa o telefone, do outro lado o computador. Desligados.

Nas paredes prateleiras de fibra natural dizem do gosto pelo rústico e guardam cestos e livros. Os clássicos, a prosa nacional, a prosa estrangeira, os técnicos, a poesia. Edições raras de países longínquos fazem-na feliz. Assim como a cestaria, que lhe agrada mirar. Cestos pequenos e coloridos contrastam com o verde da parede.

Jibóias pendem em galhos que se entrelaçam, descrevendo sinuosas curvas vivas no espaço. Das paredes gravuras de exposições e no chão um tapete cuidadosamente jogado em frente à bergère denunciam o apreço pelo requinte.

"Wabi-Sabi", ele diz para implicar com ela, e se ri quando vê que a atingiu. Chegara de repente, trazendo outra montanha de papéis. Organizados. Em livros. "Pensar não é bom. Estraga o pensamento", sentencia.

Ela sorri, feliz. Sabe a que se refere. Suspira ao ouvir o sino tibetano vibrar às carícias do vento norte. Rende-se também, e se entrega. À vida.

Sônia Regina