Gatas de Boa Viagem

Ao passeio matinal,
raios do sol mediterrâneo,
já me indaguei sobre mistérios
e à presença súbita de um anjo
foi-me dito,
pela boca sagrada do anjo: - É mais fácil secar este mar
com este pequeno balde...
Desta vez,
o inconsúltil mar-oceano,
um pequeno buraco, de areia,
uma pequena mulher,
angela da manhã,
uma pequena vasilha,
aos raios deste sol do equinócio,
brilham as águas verdes,
brilham-me, na memória, teus olhos verdes,
verdes campos, verdes matos;
azuis, os céus que também brilham...,
e .................................................................... de joelhos,
consulto o horizonte
à procura
do teu rastro, amor!

Testemunha-me a brisa da manhã,
certificam-me as algas marinhas
volutas conchinhas me dizem: ela está longe, meu poeta!
estamos longe, milhas e milhas,
miríades de passos - espaço -
muito longe...
Rastejo outra vez o horizonte
e à minha frente a mesma mulher,
de todos os dias,
a mesma vasilha, de todas as manhãs:

- Afinal, minha senhora, bons dias,
esse balde de areia...
algum aterro?
Sou um poeta, meio sonâmbulo,
desculpe, bons dias,
por favor?!

- Este balde de areia,
eu o levo todos os dias,
é a minha penitência,
a minha saudade;
quando eu era menina,
li a história de um rei,
um travesseiro,
também de areia...
- Quem repousava no meu travesseiro
[e fez o gesto: era regaço]
em viagem,
e aí eu busco esta areia
e espero...
mesmo sabendo que não...,
[e fez o gesto: era infinito]
mesmo assim, todos os dias,
um balde bem cheio.São histórias do mistério,
mistérios da areia,
mistério trino, Agostinho;
são histórias da saudade,
saudade ímpar, minha senhora:
Bom dia, até amanhã!
Um instantim,
senhor poeta,
esta areia que colho,
esta penitência que recolho
é para as minhas gatas...

Três,
lindas...
Uma está de gatinhos...

[...] O senhor quer um?Sim, eu quero!