Habitação

Nem saberia dizer onde moro exatamente.
Desconfio que habito dentro de meus dentes.

Doutras vezes era a penugem dos canários,
e era ali, naquelas sedas, penugem e cor,
que eu me mudava para minhas mãos,
senão os gatos, o dorso, viajava neles.
E se um pássaro súbito:
não pelo avisto, pelo ouvido porém;
(o som é que é súbito) - e outra vez me mudava,
era só ouvidos.
Para os meus olhos,
eles se esbarraram – sobre todos os horizontes –
em cima da beleza:
clamassem os dentes,
clamassem as mãos, clamassem as oiças,
a pele também clamasse - qual nada! -
haveria de engolfá-la só com os olhos -
anos a fio moro neles.
Um dia morei sobre o peito de minhas mães,
branca e preta, as mães,
(todas verdadeiras)
na mesma medida, agora, assim,
minha banda-fêmea
te regaça: desta vez
“mulher”,
sou tua “mãe”.
Pousa, amor,
te esbalda na cavilha deste peito-pulso
que pulso de pulsar te estremece:
teus dentes, tua-inteira, toda-tua,
tua cara, teus cabelos, tua pele - tudo - e alma;
deixa-te cair neste infinito-agora.

Terminei de sair dos meus dentes, dos meus olhos,
das minhas oiças também saí;
habito agora apenas esta minha mão;
sou apenas esta mão:
nenhuma diferença entre todas as coisas,
um dia quis pegá-las, mordê-las; mão,
o calor de tuas sedas.
E se dormires
recobrirei respeitosamente a tua nudez,
que é só tua -
pausadamente, pousa
o hálito
na cavilha deste peito largo:

dorme, amor,
sossega, da
tua
nudez - sossega -
que da aurora,
vigilante
eu tomo conta.