Noite, dois excertos

Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
[Álvaro de Campos]

1

Bromélias para Rachel

O teu retrato, ontem de noite, na revista do Távola,
e não me assombrei. Pelo contrário, estás linda.
Agora de manhã, mostrei à advogada,
ela trabalha aqui comigo,
e disse-lhe, já mostrando:
"Parece com você".

Ela disse: "Parece não, é muito séria".
Eu disse: "É não; ela é uma poeta dos aurorais, os sóis do pântano".

Ela perguntou se tinha bromélias. Eu disse que bromélias, com muito espinho e muitas
abelhas que me ferroavam
todo o tempo, eram
[as bromélias, os espinho, as abelhas]
os olhos
de ambas. Não reparei
se ela enrubesceu; uma liminar, essas banalidades do "pncd"
o pão nosso de cada dia - o cliente ao telefone;
e então a noite tomou conta outra vez.

2

Os desenhos

E todos os desenhos eram prévios.
Até mesmo o gesto:
pegar uma xícara, coisas banais,
riscar um risco, o dizer que sim,
levantar da cadeira; eram prévios
todos os desenhos. E bebíamos e nos ríamos às coisas fúteis,
e nos dizíamos duma casinha bem branquinha,
como se à mata, os regatos
já rumorejassem a nossos pés.

- Que mais queres, leitor ávido de coisas?
Uma montanha? Exiges uma montanha,
que eu te fale da montanha? Pois havia montanha,
sim; o horizonte encurvava-se ao nosso olhar,
profundamente
às coisas de que aos olhos...
E eram
excessivamente prévios todos os desenhos.

Agora,
este triturador de papel.