Novos estudos da língua protuguesa

No canto I dos Lusíadas, narra-nos o poeta que, ao aportar a armada portuguesa a Moçambique, de viagem para a Índia, o Regedor da ilha acorreu a saudá-la e indagando a religião e os costumes dos lusitanos, manifestou o íntimo desejo de conhecer as armas com que pelejavam. Aquiesceu, de bom rosto, o Gama a tão justificável curiosidade, mas não sem ponderar ao impetrante:

Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que nunca as queiras ver como inimigo...

Como foi que me vieram à lembrança estes versos do grande épico, ao voltar a última folha dos Novos estudos da língua portuguesa? É que eu acabava de experimentar detidamente de que têmpera eram as armas com que Mário Barreto se aprestara para o combate num recontro em que teríamos de esgrimir como adversários, se lhe não tivesse sobrevindo, à ultima hora, não sei que contratempo; e a impressão que me ficara de tão demorada observação era a da indiscutível e alta competência do autor na matéria que professa.

Nem podia ser de outra maneira, desde que, por um lado, se aparelhara com aturado e minucioso estudo dos clássicos portugueses de todas as épocas e, por outro lado, se assenhoreara dos processos mais adiantados de investigação filológica, colhidos nas autoridades de maior vulto. Um espírito que assim se nutre torna-se impenetrável aos preconceitos de toda natureza, que se adquirem com a meio ciência, e não se deixa facilmente dominar por nenhuma espécie de idéias antecipadas que lhe obscureçam o entendimento.

E assim é que, em vez de formular regras para falar e escrever corretamente o português, ofício dos gramáticos que raramente se saem bem do seu propósito, o autor dos Novos estudos prefere deduzi-las de citações de escritores de maior peso, e quando, na concordância, regência ou construção, se encontram formas divergentes, à semelhança do que se dá com as duplas dos vocábulos, não hesita em aboná-las a ambas, deixando ao sentimento do escritor a preferência por esta ou por aquela.

De fato, quem quer que alie o hábito de escrever ao estudo teórico da língua não pode duvidar de que seja aquele o verdadeiro critério.

Quantas vezes não ocorre à pena do escritor completamente possuidor da sua língua a contextura de uma frase que, se houvera de ser submetida ao acanhado molde em que nos comprime a análise convencional, embaraçaria grandemente a quem tentasse fazê-lo e de cuja vernaculidade ele não pode, entretanto, duvidar, ou porque lhe esteja cantando no cérebro por a ter encontrado nos clássicos ou porque lhe ficasse gravada no coração de havê-la colhido da boca do povo, que sempre reveste os seus conceitos de graça simples e nativa.

Com o fim de justificar aquelas formas aparentemente contrárias à gramática, assinala Mário Barreto com acurada minúcia os fatores de natureza complexa que concorreram na evolução da língua: analogia, contaminação, atração, catacrese, etc., e que constituem, sob o domínio das leis orgânicas da transformação dos vocábulos, a vida própria de cada idioma.

Quem não possuir de modo completo o conhecimento destas leis, e daquelas forças, há de sempre legislar insubsistentemente em matéria de linguagem.

Não basta, porém, ter a compreensão clara de umas e outras para pontificar na matéria; é necessário estar tão familiarizado com elas, havê-las assimilado por tal arte que já o espírito não faça reparo, ao ver como elas atuam.

É o que se dá com o autor dos Novos Estudos: quem o lê sente bem, na precisão da sua forma, que, se ele não tivesse necessidade de transmitir aos leitores as noções sobre que discorre, não chegaria nunca a formulá-las, tão consubstanciadas se acham elas com a sua própria natureza; e, se freqüentemente abre um parêntese para se justificar de tal ou tal locução, deste ou daquele fraseado, é claro que ele não pede licença a ninguém para se exprimir por uma forma de cuja legitimidade não tem a mínima dúvida e que o que ele pretende é aproveitar o ensejo para ensinar aos que a ignoram a doutrina de que se acha possuidor.

Prova real da proficuidade do método que na sua obra Mário Barreto preconiza, é a perfeição de forma atingida pelo autor: estilo preciso e conciso, como manda a arte, com toda a elegância que a matéria comporta, e, porque o livro versa todo sobre vernaculidade, cumpria que não houvesse em todo ele o mais leve deslize da pureza da linguagem, e como isso é um fato que se patenteia no percurso da obra, é este, no meu entender, o seu maior merecimento. É pregar pelo exemplo.

Em conclusão: seria grande satisfação para o meu amor próprio de oficial do mesmo ofício poder discordar em vários pontos da doutrina dos Novos estudos da língua portuguesa, e combatê-los com denodo, mas é muitíssimo maior o meu prazer de intelectual, ao verificar que, graças à fixidez dos princípios da lingüística e à precisão do método filológico, já hoje é possível (maravilha estupenda em que ninguém acreditaria há tempos atrás), estarem dois estudiosos da especialidade inteiramente de acordo sobre o fundamento e deduções da ciência que professam.

É o caso de eles se darem mutuamente os parabéns.

IX

Meu caro Martins Fontes,

É ainda com a alma em cadência, no encantamento em que A Dança me envolveu, que lhe dou as graças pela sua dádiva afetuosa.

Escolheu o meu querido poeta a arte coregráfica para assunto da sua conferência, como quem tinha a peito, pela unificação do cromatismo, do som e do gesto, realizar a suprema beleza do ritmo na maravilhosa língua do nosso amor.

Como se haveria na palestra o sonoroso poeta de Verão, era fácil antevê-lo. Não se mostrara ele completamente senhor dos recursos da aliteração e da onomatopéia, dominador da rítmica? Como não executaria, a primor, A Dança do seu sonho, ao compasso da formosíssima das línguas?

Assim foi que aqueles bailes, antigos e modernos, encontraram a mais acentuada expressão da graça peculiar a cada qual, na sonoridade incomparável do verbo que os modulou. E tão concertadas lhe saíram aquelas danças, que, ao trovar a Balada Branca:

Meninas, lindas meninas,
Qual de vós é meu ideal?
Meninas, lindas meninas,
do Reino de Portugal.

se deixou levar pela toada, prosseguindo na redondilha:

Ó Portugal pequenino,
Que és bom para os pequeninos,
Ó meu velhinho inspirado,
Cujos cabelos tão alvos
Parecem feitos de prata,
Como a coroa de um rei,
Ó avozinho adorado,
Que sabes tantas histórias,
Tantas lendas verdadeiras.

Consciente ou inconscientemente?

Enterneceu-me até as entranhas o magnificente Magnificat em louvor da nobre língua portuguesa. Mas, cautela, meu bom amigo, não o desvaria essa paixão. De um poeta obscuro seu eu que, pelo muito que amor aquela encantadora, na ânsia incontida de lhe satisfazer todos os caprichos, de se lhe submeter a todas as exigências, se arremessou perdidamente pela floresta dos clássicos, à cata do vocábulo único que deveria exprimir, com exclusão de qualquer outro, cada uma das suas impressões, condenando-se para todo sempre à pesquisa insensata do fenômeno glotológico; com o que se lhe foi embotando a faculdade inventiva ( se alguma hora a possuiu) e amortecendo a sensitiva. E, hoje em dia, apenas se sente viver para a arte, quando um poeta de primeira grandeza, como o canto de Verão, lhe faz vibrar as cordas da alma que a rubigem das gramatiquices ainda lhe não contaminou de todo.

E por isso bendiz comovido a obra de Martins Fontes e o estreita ao coração num abraço fraterno o

Confrade muito admirador e amigo

Silva Ramos

Rio, S. Clemente 508 - 18-5-919.