Não apresse o seu rio interior

"Existem duas coisas importantes
que as pessoas devem saber para
bem viver suas vidas:
Uma: Nunca devemos nos preocupar com coisas pequenas.
Duas: Todas as coisas são pequenas..."
(Daniel Munduruku - O Banquete dos Deuses - Editora Angra)

Quando somos crianças, não queremos ser crianças - inocentes, não pomos fé nesse estagio vital (e maravilhoso) - e queremos crescer logo, sonhamos o bendito dia de sermos adultos, heróis, vitoriosos. Pobre de nós. Quando somos jovens imberbes, ainda trazemos aquela criança da infância conosco, mas a renegamos (às vezes até disfarçamos e fingimos que não queremos o colo da mãezona que nos protege e adora) e queremos forçosamente falar como adultos, agir como adultos, fingindo que somos adultos e que estamos seguros do que dizemos. E então, meu Deus, quando somos passados de jovens para a madurança do estágio evolutivo de quase adultos, sentimos o peso da barra de viver. Triste cruz. Pior, quando estamos então adultos, passando dos quarenta - ainda que na flor da primavera (mas renegados socialmente falando) - é que vemos o quanto fomos tolos, meu Deus... e então, é tarde demais, já não podemos ser crianças, a juventude passou do tempo, e estamos naquilo que o mote popular diz: -A vida começa aos quarenta. Sim, começa aos quarenta, na Farmácia, no Convênio Médico, no Terapeuta, no Seguro de Vida e Morte.

Calma, irmão, é preciso coragem, como diz a canção. Vejamos por outro prisma, nem esoterismo tantã de fien-de-sécle; nem livro de auto-ajuda, mas, participativa ajuda mútua. Vamos por etapas. Assim como, para os insensíveis apressados de roldão, é melhor comprar um cãozinho mequetrefe do que adotar um menor carente (o cão você pode dar ração, pedir carinho, enxotar ou tascar na rua) pelo ser humano você é responsável (lágrima e afeto) no amor e na dor, e o que fizer a ele, ele fará à sociedade, ao mundo, por isso você não quer correr o risco de uma troca salutar...então você bebe, não quer entregar seu coração, não quer tentar reciclar a sua alma, nem se toca que, por exemplo, o seu amor pode ter prazo de validade... Já pensou nisso?

Todos nós (eu falo por mim também, claro) queremos apressar a chuva, a viagem, o diploma, a escada para o sucesso, a pós-graduação, a mudança do Brasil em um ano, quando não fizeram justiça social em quinhentos anos. Vamos com calma, baby. Sejamos criança pelo mais precioso longo tempo que pudermos ser. Maravilhosamente crianças. -Tio Xhilas - diz minha adorável sobrinha Isabelinha Jordani - conte uma outra historiazinha; mas causo engraçado que o sr mesmo inventa de inventar. E eu conto. Criança de novo. Criança pra sempre. Olhar, gestual, palavras. Sendo igual entre crianças. Reconhecido por elas. Bebezão mamando cervejas... Meu Deus, é adorável ser criança, parecer com uma, fingir-se que é uma (e não sou?) fazendo rir todo mundo que acha que estou calvo, obeso e velho (velho é um estrela binária!) quando riem com as minhas aprontadas pueris... Sempre fui (e sou) adorado por crianças. Será o impossível?

Jovens: lido com eles. -Tiofessor Silas, olha só que baita Rap. Então julgo (bem, com conhecimento de causa) improviso algum Rap (ritmo and poesia) com o nome do aluno (ou situação de classe.) -Puxa Professor, o sr canta bem, imita bem o Renato Russo, tem a cara do Raul Seixas (depois da pança) e manja de música, hein? Tá ligado? -Professor Silas, faça um rock para a nossa turma de formatura. Um, dois, três: eis o Rock! (Será o impossível?)

Balada de adeus do terceiro colegial
(Aos meus alunos-filhos do terceiro A do Kiryllos 2003)

São tantos anos estudando, aprendendo
Aulas e amizades, são conquistas, são lições
O dever de casa no coração vai crescendo
Os amigos foram camaradas, baladas e canções
Foram anos belos, a juventude toda alada
Para abrir janelas e céus nos corações
Cada retorno, cada trabalho, cada jornada
Formam esperanças, sonhos, ilusões...
Chegou a hora do adeus, essa é a parada
O Terceiro A do Kiryllos vai se desmanchar
Cada um por si e Deus em cada
Temos uma outra estrada iluminada pra trilhar
Adeus Amigos, Adeus Irmãos, Adeus Professores
Foi um prazer estar entre os alunos seus
Vamos deixando amor e semeando flores
Até um dia, Adeus...Adeus...Adeus...
Fora os três anos mais importantes de nossa vida
O Ensino Médio do Kiryllos foi demais
Agora saímos vencedores de cabeça erguida
E que vença aquele que for forte, for capaz
Vamos dizendo adeus que tá chegando a hora
Vamos embora mas esse tempo em nós ficou
Uma saudade nova em nosso peito mora
Feliz é aquele que aprendeu, curtiu, brilhou

-Professor, o sr não existe. Esse tem sido o, ponhamos, "elogio" que venho recebendo pela vida. Enletro músicas, musico letras; mostro pro aluno que sou sim, papo-cabeça, ou que, ele mesmo sendo jovem, tem muito a crescer, caminhos a percorrer, e não digo que sou contra isso ou aquilo, dou exemplos, questiono, coloco na roda de discussões os problemas, os eventuais conflitos de percursos, eventuais sanções... Sou jovem entre jovens. E me enturmo muito bem com a patota toda. Ainda se diz patota? Benza-Deus!

Cara e coragem: -Fui um jovem brigador, sentidor, guerreiro, teimoso, rebelde, transgressor (nas palavras), mas nunca depredei orelhão ou usei drogas, mas, fui sim, fui teimoso, turrão e, confesso, boêmio e cervejólogo. E li muito, curti muitas baladas de MPB, cantei em barzinho, cedo escrevi pra jornal, cavei meu próprio caminho...para correr o meu rio interior em margens plácidas.

Cinqüenta anos blues e, desconfio que às vezes corri demais, quis pular etapas, queimar vivências, mas, por sorte, a vida me colocou, por bem ou por mal, no meu devido lugar. Tentei sim, confesso, apressar meu rio interior. Mas me feri em margens espinhentas, atropelei pontes invisíveis a olho nu, queimei etapas e travessias (que me fizeram sofrer em remanso adiante), ou seja: tive que passar por tudo o que passei, para me fazer maduro, consciente, seguro de mim, sabendo, como diz os evangelhos, que há tempo de plantar, tempo de colher, tempo de chorar, tempo de sorrir, tempo de estudar, tempo de praticar, sendo como o rio: segue a sua margem e sabe que, vai dar no mar. E que a sua água será gasosa, vai gelar, vai subir, voltar, ser nuvem, chuva, copo de água, matar sedes; ser expelida do corpo, voltar a ser purificada, represada, correr em leitos de pedras, servir a peixes, esquilos, lavouras, chafarizes, fontes luminosas, a mesma água, sempre, por século e séculos... Como os seres humanos?. Essa conclusão a Deus pertence...

Essa é a mensagem: não apresse o seu rio interior. Não desejo para ninguém, ser o que sou, passar o que passei, leonino teimoso, determinado, perdendo anéis para não perder os dedos... E sempre chorando em mantras-banzos-blues tupidavídicos, os meus desespelhos, meus desamanhecimentos...

Não apresse o seu rio interior. Vá com calma, recue, curve-se, dê-se um tempo, refaça o mapa vital de sua vida, perca lastro (olha o estresse - olha o elástico no coração) e depois, respire fundo, tente de novo, tente outra vez... A vida é isso. A flor não se faz bela num só sereno ou orvalho. Precisa de vários dias para tingir-se dos raios energéticos do sol.

Curta a sua maria-mole queimada, o colo da Maria-Cebola de sua irmãe mais velha, curta suas espinhas nodosas, curta o cursinho, arranje um gato mas também adoce o dia de um carente, seja um bom irmão, um bom filho, um bom cidadão, e quando discordar, seja criança na palavra, seja jovem no viço, seja maduro e consciente no diálogo, na troca... Tudo a ver. Tudo a Ser. É por aí.

Não pegue pesado demais consigo mesmo. Ninguém vai tirar seu amanhã, se você o começou ontem e o está vivendo INTENSAMENTE no dia de hoje. Viver com total zelo pelo seu corpo, sabendo que, tudo temos que prover: O social, o sexual, o espiritual, o financeiro, o físico. O social porque somos seres humanos na relação de trocas. O sexual com prudência, no tempo certo, nos preservando por amor, nos curtindo com zelo. O espiritual - porque ninguém é de ferro - lendo, escrevendo, curtindo artes, orando e vigiando. O financeiro, poupando, guardando, investindo, mas não comendo arroz com ovo para ter uma moto. Depois vem a úlcera. E o corpo físico sendo o templo do seu ser que é todo alma e fé.

Seja esse rio que não apressa seu curso, porque sabe que chegará aonde terá que chegar. Não há um fim de mundo. Há o fim de um elo, de uma passagem, de uma travessia, de uma troca, de uma página de rosto. Seu filho será a sua árvore, seu livro será a sua semente, sua casa será o que for o seu coração. Tudo isso o que você foi, o que você é, o que você será.

Não apresse o seu rio interior. Vá por mim. Passar pela vida e perder a viagem? Nem pensar. Cada dia seu gomo, cada dor sua lacuna, cada vínculo seu motivo, cada momento seu carvão, cada paixão uma dádiva cada adeus um pertencimento, cada rock uma emoção, cada fim de tarde uma janela, cada manhã um varal de bravuras e contentezas. Seja inteiro você, tome seu remo sensorial, siga seu curso espumoso, adore a nascente-pai-mãe, aprecie a margem social, passe por portos-irmãos, sonhe faróis-amigos, torça por anjos e ídolos, e vá em frente sendo o que soma, o que multiplica, o que ao mesmo tempo é flor e vento, barro e estojo de luz, ilha e gaivota, cabeça, tronco e membro. Ser Humano! Não seja escravo do relógio, nem de seu sonho. Olhe as flores do bosque, não simplesmente a lenha para a lareira. Afinal, já dizia Saint Exupéry: "-O futuro, é sempre o presente. Não se deve prevê-lo, mas, permiti-lo!"

Silas Corrêa Leite