Poema do depoimento na polícia política

In Memoriam de Vlado e Santos Dias

1

A luz ficou a noite inteira acesa na minha cara.
Eles me perguntaram nomes, mas eu só sabia poemas de esperança
De liberdade e de decantação de ser humano enquanto essência.
Eles perguntavam crimes que não existe no resistir
À fome, ao arbritio, a miséria do Nojo Oficial
De um estado inumano, militarista, corrupto e senil.
Sabiam mais coisa de mim do que eu próprio achava que sabia
Do que eu lembrava, do que eu supunha
Do que eu mesmo pensava saber de minha vida de Sentidor.
Deram-me detalhes de coisas (e resistências) que eu tinha esquecido.
Nomes, datas, vôos, panfletagens e pichações
Pois um Sentidor que ama - Quando tem um sonho civil
Cria e luta pelo prazer de viver e morrer por ele.

2

A luz ficou a noite inteira acesa na minha cara.
E eles (violentos e posudos) não perceberam
Que a noite infame era eles e o que defendiam armados
Podres, insensantes, inumanos, marionetes e corvos.
E eu era companheiro íntimo da verdadeira luz
E da dignidade humana, ética e paisana dela.

3

Quando eles apagaram a luz e me mandaram embora vivo
Com minhas esperanças com esparadrapos
Com minha Ficha Policial atualizada
E minha arma de escrever engraxada de húmus e ícaros
Foi que senti melhor a funesta noite que habitava
Toda América do Sul de lucros e fardas hediondas.

4

A luz eu trazia e trago na alma, nos olhos e no coração
E eles continuarão torturando, seqüestrando, matando de fome e terror
Os favelados, os contrários, os poetas, os operários e os estudantes sonhadores
Enquanto a nação clara por justiça social ainda que tardia

5

Depois , eu ainda tenho a minha própria luz
E ELES NÃO ENXERGAM NO CLARO.
(Registro Anos 60/70)

Silas Corrêa Leite