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Anjo torto e a estrela no meio do caminho
-Quando eu nasci...bendito fruto depois de seis mulheres (era para ser bruxo como invoca a lenda hebraica?), filho de líder protestante ortodoxo criado à beira do Rio Itararé, nem podia, desde logo, imaginar a minha sina de, ponhamos, gauche, maroteando totens, ritos, raízes e cardumes. Mais um alumbrado no pindorama geral? -É que, na casa em que morávamos, na rua 24 de Outubro, Vila São Vicente, na Estância Boêmia de Itararé, periferia descalça, infância cor-de-rosa, entre cantorias, mesas fartas, causos e acontecências, de castigo pelo guaiú notório tínhamos o famoso Medo de Deus (Deus castiga!), a surra de vara de marmelo (cultivávamos um belo pé em casa, no quintal florido e formoso), e ainda, para acrescentar, obrigações-castigos de se ler a Bíblia, dicionários, jornais (ah as brigas do Jango e do o Brizola com o Lacerda no Estadão), e eu, com as manas mais velhas, ouvindo a Rádio Mayrink Veiga, lendo revistas e livros, fui na fiúza e lia também as revistas Capricho, Intervalo, Sétimo Céu, Melodias e, malemal um piá que amava os Beatles e Tonico & Tinoco, já tinha pego um gosto sagracial pelo verbo LER, fugindo-me, ilhando-me de tal forma que, até hoje - Freud não explica - gosto mais de ler do que de respirar/existir. -Para descobrir Érico Veríssimo, a MPB e os clássicos russos foi um pulo. Depois foram entrando na minha vida todos os clássicos, cedo pesquei Pessoa, Rilke, e ainda Vinícius poeta/compositor, mais os poemas e canções de meu pai que, quando jovem fora acendedor de lampiões de gás de Itararé, e quando velho fundava e regia corais e bandas, ensaiando-os na região e nos interiores do Paraná caboclo. -Pois eu, por incrível que possa parecer, apesar das duas notas musicais (no plural) no nome, nunca aprendi a tocar nada, mas, no conceito inteligência emocional tenho um raro ouvido musical e componho com uma facilidade de assustar, além de blues, baladas e rocks, e tenho os meus poemas mais ou menos com tácitas letras de esmerilhar enluos, plangentes harmonias e naturais ritmos, quase raps para serem lidos/cantados, e eu acabei fundando de chamar minhas poesilhas, às vezes, de mantras-banzos-blues. -Mas, entre Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Bandeira e tantos outros, só me senti existindo poeticamente falando mesmo quando li o Mestre Carlos Drumond de Andrade. Com ele eu descobri a Terra do Nunca dos Sonhos, a minha fuça imberbe ali nos cacos de espelhos do que eu queria fazer, ser, escrever, e assim, o gauche maravilhoso de Itabira-MG, tornou-se, muito além de sua pedra no sapato do fazer poético, a minha referência-Estrela no meio do caminho de peregrinar sensoriedades e estimas revisitadas, entre picolés de groselha preta, balas de limão, doces de xuxu e sopas de fubá com couve rasgada. -Aliás, já fui sondado para escrever sobre os melhores cem poemas que bebi em toda a minha vida de ledor voraz, e entre Lorca, Neruda, Bandeira, Carlos Nejar, João Cabral de Mello Neto, Silvia Plath, Ezra Poud, Yeats, Hilda Hist e tantos outros, escolhi o Entregador de Leite, do Drumond, como um dos cem mais. Raro. Belíssimo. Um poema-crônica fragmentando um enfoque lírico e terminando magistralmente poesia pura, num belo achado de confeito e lucidez. -Porque Drumond, se fosse da América Rica, ou Europeu, ainda na flor dos seus 60, teria sido Nobel. Mas, brasileirice a parte, seus poemas viajam o mundão sem porteiras ainda hoje, é elogiado na Alemanha, na França e nos Estados Unidos, só para citar alguns país de renome cultural. -Com sua poesias-crônicas; com sua brejeirice típica no compor tipos, construções e andanças poéticas, com seus achados e trocadilhos hilários e de alto nível, com seu linguajar íntimo de curtumes abertos, convida o sensível leitor-crusóe a pisar um incrível chão-tez com ele, mostrando a alma rueira, o tempo como fermento e a palavra como duto de iluminuras em trilhas de bons feitios. Sim, o maior poeta do Brasil em 500 anos. -Agora, nos seus cem anos - porque ele ainda pulsa, incomoda, açoda, reina, orna, vive e viça - cá estamos nós, seus gabirus-discípulos - que mamaram em seus potes de lágrimas-poemas - meio assustados com a globalização neoliberal inumana e aética, dando testemunho de suas claras resistências, pegando seu cobertor vermelho, uma meia meada na sua estrada que vai dar no sol, referenciando sua verve, seu tear e imaginário de moendas íntimas, como se acendêssemos fósforos de sua luz em cada poema que tentamos levar adiante, sempre na busca de paz, na esperança de justiça, feito noiteadeiros estranhos desses perdidos brasis gerais de além-minas, colocando a boca no trombone, inventando o inexistente, procurando sarna pra se coçar, destruindo fogueiras de vaidades e clubes de egos, fazendo limonadas sem limões, mas, como é importante que a emoção sobreviva, faz escuro mas cantamos, nosotros, Drumondianos, por respeito e homenagem, tentando demover moinhos e ventos, acabar com o bordel excelência de tiranos e boçais, mirando o seu retrato da parede, narrando os josés e manés que se misturam mestiçando as senzalas periféricas por atacado. -Pois eu me confesso Drumondiano mesmo quando assusto pessoas. E me confesso Drumondiano quando recebo elogios velados ou mágoas tácitas. Pois eu me confesso Drumondiano porque, como no poema, mais do que ele nos entregar o leite que arrancou da pedra, ele também, Ave Drumond, nos entregou (e entrega) uma nova aurora a cada dia, como na canção, como na Lição de Existir de sua vida-livro aberto. -Parabéns CARLOS DRUMOND DE ANDRADE, Poeta-mor. Nesses tempos bicudos, os que vão te ler a vida inteira, e também por causo disso também tentam sobreviver incólumes, saúdam o nodal criativo de tua existência matrix. Silas Corrêa Leite |