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O último porto
I
Barca dos sonhos, minha companheira
Dos dias de tormenta e de bonança,
Em seu seio o mar calmo te balança;
Vamos longe vogar, barca veleira.
Atrás fica o passado em nossa esteira,
Vai-nos à proa o lume da esperança,
Do passado a saudade nos alcança,
Mas a esperança como vai ligeira!
Na vasta solidão do mar, enquanto
Rememoro a existência dolorosa,
Surgem dias de gozo puro e santo.
Cresce a luz da esperança radiosa,
Vamos dormir dos astros sob o manto,
Barca dos sonhos, pétala de rosa.
II
Barca dos sonhos, pétala de rosa,
Vamos dormir das ondas nos arminhos,
E por baixo de nós monstros marinhos
Cortam do abismo a senda tenebrosa
Ao longe em negra linha temerosa
Outros monstros de ferro amplos caminhos
Fecham nos mares amplos, e sozinhos
Ditam a lei da força imperiosa.
Dá-me a cota de malha, o meu montante,
O rijo elmo encantado de Mambrino
E o meu leal e heróico Rocinante.
Se monstros combater é meu destino,
Tenho pra luta o braço meu possante,
Para a vitória um protetor divino.
III
Desta vitória o protetor divino
Vem do Oriente como a luz do dia,
E do sol ao fulgor que se irradia
Entoa o mundo redimido um hino.
Ouves acaso esse tanger de sino,
Que vem de longe, além da penedia?
É o triste tocar da Ave-Maria.
Na velha torre que me viu menino.
Vês como o sol se esconde no poente
E doura apenas o perfil da serra,
Barca dos sonhos a vagar silente?
Aproa à costa que meu lar encerra,
Pois quero agora repousar contente
No seio amado e bom da minha terra.
Julho de 1912.
(Revista da Academia Brasileira de Letras, ano III, n. 7, 1912.)
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