João Caboclo

(Lendas da serra e da baixada)

Por trás do Morro Grande, entre duas colinas,
Envolta no seu véu de névoas matutinas,
Dentro do vale extenso a mata se ocultava.
Outrora habitação de tribo altiva e brava,
Tornara-se depois em quilombo, e temida
Dava ao mísero escravo o sustento e a guarida.
Por léguas em redor as vastas derrubadas
Os machados e o fogo, as terras desnudadas
Desde a Serra do Mar até à beira-rio
Haviam longamente às chuvadas do estio
Entregue sem piedade, e as várzeas e as montanhas,
Encobrindo no solo escavações estranhas
Embargavam o passo a qualquer tentativa
De ataque inopinado à selva primitiva.
A mata era um reduto, e as estradas cobertas,
Por meio da natureza em contorno abertas,
Tornavam-no seguro. Assim sem obra de arte
A terra entre os seus dons a defesa reparte.

O sítio, já sombrio ao declinar do dia,
Era todo pavor quando a noite caía.
Cheio de estranhos sons, de sinistros ruídos
O quebrar da taquara e dos ramos caídos
Ao passar do tapir pelo jaguar montado
Em busca do carneiro e do tronco tombado
Para arrancar do dorso a carga que o devora;
O riso da coruja, a dança do caipora,
A voz do boitatá, e a voz do lobisomem,
Dividindo a preá, que disputando comem.

[...]

Da floresta saiu um homem de alto porte,
Robusto, varonil, cabeça em torso forte;
Tinha a camisa aberta e a calça arregaçada
Mostrando a brônzea tez de cor baça e queimada;
Trazia firme o andar, mas parecia inquieto;
Transpôs o Morro Grande em atalho direto
E uma hora depois na casa de vivenda
João Caboclo achava o dono da fazenda.
- Então a derrubada?
- A gente inda não veio.
- Não veio, hein? Nem irá. Você descobriu meio
De faltar à promessa a mim feita, há mais de ano.
- Patrão...
- Fique sabendo: eu não mudo de plano
Porque não querer você derrubar esse mato.
- Patrão, eu cumpro sempre os negócios que trato.
- Por que então não derruba?
- Eu lhe digo a verdade,
E se o patrão me ouvir, estou certo, não há de
Exigir que eu derrube. A mata não tem era,
Pôs-se ali a crescer onde Deus a pusera;
E cresceu, e cresceu, até perder-se a conta
Dos anos que ela tem e a que tempo remonta.
Antes da gente branca haver ganho as montanhas,
Havia serra acima umas tribos tamanhas
Que enchiam toda a terra até ao Paraíba,
Do rio Piraí em uma e outra riba;
Nesse tempo essa mata era o lugar das festas.
Havia no arredor florestas e florestas,
Mas esta era a mais velha, a colaça do morro
E no tempo da guerra era asilo e socorro.
Daqui foi Cingairu à verde Guanabara
À voz de Araribóia, e como não voltara
Tiveram-no por morto, entretanto a piroga,
Em que saiu co'os seus, ainda agora voga,
Pelos rios da serra, e se a noite vai alta,
Eu o vejo chegar quando na praia salta
E some-se na mata, audaz, bravo, ligeiro,
Como quando seguia o veado galheiro,
É preciso arredar essa gente fugida,
Não quero velhacouto...
-Acredite, com vida
Somos eu e os meus cães, o mais é gente morta,
E de tanta não sei como a terra a comporta.
Quilômbolas, não há, a última batida
Varreu de toda a mata a gente foragida.
Nesta parte cumpri a penosa promessa.
- Pois é cumprir o resto, antes que alguém lho peço
Mandar buscar a gente, é só o que é preciso.
- Agora não se corta, a mata teve aviso.
Os mortos sabem tudo e os segredos devassam,
As raízes que fundo os corpos nos traspassam,
Tiram da carne e do osso abundante alimento
E penetram no crânio alheio pensamento,
Sugam vida animal; dão olhos, dão ouvidos;
Tato, olfato e sabor, os humanos sentidos.
Quantas vezes a sós, recostado na relva,
Eu tenho visto e ouvido os segredos da selva.
"Abelha, vem aqui, eu te prefiro ao vento,
Leva todo o meu ser, meu amor, meu alento,
Àquela flor de neve agora tão corada."
E como após viçou a neve deflorada!
A vossa mata vive, e ri, e chora e canta,
Na vida do universo e na vida da planta
Tudo é transformação, a matéria é eterna,
Somente o que foi galho é agora uma pema
E na rosa mais terna a tinta purpurina
Já foi bela e foi rosa em face de menina.
Não se pode cortar, a mata teve aviso.
Tentar fazê-lo agora, era perder o sizo.
Se no jequitibá as arapongas cantam,
Quando malham o ferro, as árvores espantam;
O brejaúva fecha a entrada dos caminhos
E as fibras endurece, enristando os espinhos.
O seu plano, patrão, a mata já conhece,
Leio-o no seu aspecto apenas amanhece.
E se assim está tudo, o mato não se corta.
- Ouvi a lenga-lenga, e bem pouco me importa.
Dos escravos na lista o seu nome figura
Da compra da fazenda em válida escritura.
Mestiço, ouça este aviso, ou se quiser, conselho:
Vá, faça a derrubada ou eu lhe meto o relho.

A palavra cortou qual cortara a lambada,
Mas sem nada dizer, sem gesto nem parada,
Fora no laranjal o Caboclo sumiu-se,
E ao perfazer-se um mês, uma manhã ouviu-se
Por trás do Morro Grande o som da derrubada.
Era nos fins de abril, a chuva era passada,
Estava em flor o ipê e da quaresma roxa
As flores os capões cobriam de uma colcha
De triste viuvez. Os golpes retiniam,
Qual metal no metal, e logo se partiam
No cerne da madeira os melhores machados.
Da têmpera melhor, todos de aço calçados.
Subiam entretanto as filas inimigas,
Cortando pouco e sempre à guisa das formigas,
E por fim a floresta, a mor jóia da serra,
Jazia quase toda exânime por terra.
[...]

(Revista da Academia Brasileira de Letras, ano II, n. 3, 1911.)