Reforma agrária

Teci muitas redes
duras paredes
onde me embalei
e sonhei
qual Rapunzel
ou princesa Aurora
acordaria na vida
como a Branca
da história
ou a Bela
Adormecida

E iludida
eu menina crescia
e tudo que via
era muita agonia
o povo sofria
e tecia a mortalha
diária

O mundo fervia
e tudo que ouvia
falava ou lia
Dizia
a hora é chegada
o ponto
de partida
lutar pela vida
acabar com a desdita
das palafitas
das diferenças
de oportunidade
igualar o campo
e a cidade


Cresci
Nas minhas paredes
ainda tem redes
onde me embalo
durmo chorando
acordo assustada
não tem mais princesa
nem luta que valha
não há mais mortalha
na lida diária
há fome na mesa
não há nem migalha
não há mais partida
há só a chegada
a certeza e a crença
de que essa navalha
fincada na carne
que espeta o povo
que tanto estraçalha
vai ser retirada
ou coisa que o valha
quando for feita
a reforma agrária.

Sônia Regina