Francisco Alves

E tratando da Academia, o nome de Francisco Alves não pode morrer numa simples referência. Ele dela tudo merece e a mim é muito grato dele me ocupar.

De todos os que têm entrado nessa casa, é possível que seja eu quem tenha tudo, se não mais freqüente, todavia mais variado contato com Francisco Alves.

Editor de meus primeiros livros de Direito e desse explosivo catecismo das Festas nacionais, conheci-o como livreiro, tratei-o como homem de negócios, de poucas palavras, brusco, mas sincero, leal e profundamente honesto. Conheci-o também no trato pessoal, em íntimo convívio, havendo passado juntos, no delicioso confinamento da montanha aprazível, algumas estações de verão, no Hotel das Paineiras; e advogado, tive-o como cliente, indo ouvir-me sobre circunstâncias complicadas de sua vida, pedir-me estudo de papéis para aquisição de prédios e redação das respectivas escrituras, e, certa vez, em vésperas de partida minha para a Europa, conselho sobre seu testamento.

Francisco Alves, sem herdeiros necessários, preocupava-se com o destino de seus bens, que, aliás, a esse tempo (1904), não haviam tomado o vulto que o decênio subseqüente lhes deu. De nossa conversação verifiquei que ele, vacilando ainda no que pretendia fazer, se inclinava para o benefício das letras de preferência ao da caridade pública. Sugeri-lhe, então, que constituísse um fundo para que, com as rendas, a Academia Brasileira distribuísse prêmios que estimulassem o desenvolvimento das letras nacionais. Seria um meio de perpetuar seu nome, feito nos livros, e de fazer beneficiar o livro no Brasil do que do livro tinha vindo.

Senti que a Alves agradou a idéia. Apresentou-a, desde logo, ali mesmo, sob diversas formas, e retirou-se para voltar mais tarde, para a redação do instrumento quando houvesse assentado uma resolução.

E não voltou. Ausentei-me, pouco depois, do Brasil e quando, muitos meses passados regressei, da primeira vez que me encontrei com o velho livreiro, este me disse, com ar discreto, que havia feito seu testamento e que minha sugestão não havia ficado no olvido.

Doze anos se passaram sobre estes acontecimentos antes que, por morte do testador, o testamento pudesse ser aberto e conhecido. Nunca mais volvera Alves a falar-me em tal assunto, se bem que nossas relações seguissem assíduas, tendo ele continuado a ser o meu editor e eu a ser seu advogado. Ainda em meados de 1917, no próprio mês que foi o último de sua vida, tratamos sobre negócios. Eu havia chegado de uma viagem aos Estados Unidos e fora informado que o meu amigo estava enfermo no Hotel das Paineiras, onde, desde alguns anos, tomara o hábito de prolongar a sua estada. Fui vê-lo. Havia num acidente de trem, com o solavanco, caído e fraturado uma perna. Pediu-me que voltasse. Estava, então, pensando na constituição de nova sociedade para a casa comercial, de que ficara único interessado depois da liqüidação conseqüente à morte prematura de seu sócio e muito querido amigo, Manuel Pacheco Leão. Tivemos diversas conferências. Mas, como seu estado de saúde se agravara, nossas conversas tiveram de se espaçar. A fratura não teria, nela mesma, maior importância, mas Alves, além de idoso, era diabético; certa manhã, antes que cousa alguma houvesse sido assentada, fui surpreendido com a notícia de sua morte.

O segredo que encerrava o testamento, e de cuja extensão eu não fazia idéia, caiu, então, como uma notícia inacreditável, no domínio do público. Só depois que, no dia seguinte, todos os jornais a referiram, com minúcia, e se deu a conhecer o teor do extraordinário documento, é que se convenceu toda a gente que se não tratava de uma balela. O velho trabalhador paciente e incansável, modesto e sóbrio, que vira correrem-lhe os dias todos da sua vida, sem exceção de um só, na monotonia da mesma luz mortiça, sem revérberos e sem clarões, debruçado à mesa simples de trabalho, no fundo abarrotado do seu armazém ou num despido quarto de hotel, que jamais se permitiria o desperdício de uma festa ou o luxo de uma gravata de cor, afundava na morte num inimaginável esplendor de prodigalidade.

Eu tivera a fortuna de, bem cedo, conhecer Francisco Alves logo que vim, bacharel de fresca fornada, tentar a iniciação de meus passos de advogado. Levara-me à sua casa, então à rua Gonçalves Dias, Carlos de Carvalho, o grande jurisconsulto, meu velho e saudoso mestre, que nela me deu crédito. E bem me lembro que algum tempo depois, após uma missa de sétimo dia, em São Francisco, ainda o meu velho mestre e amigo levou-me a almoçar no armazém do Alves. À mesa sentaram-se ainda, além da dedicada companheira do livreiro, entre outros Sílvio Romero, já glorioso, e Felisbelo Freire, desconhecido, recém-chegado da província.

Alves simpatizou comigo; ofereceu-me um desconto nos livros de que precisasse, a ele devo o incremento que pude dar aos livros que me vieram do meu Pai, e desde então jamais cessaram nossas relações.

Em 1897 ele editou dois livros meus. Pude, em situações várias, auscultar-lhe a bondade do coração e a inteireza do caráter e é de toda a justiça que a Academia Brasileira, que, recolhendo-lhe os haveres, beneficiou desses altos predicados, tudo faça para que a lembrança de seu nome e a recordação da sua vida não se apaguem da memória reconhecida dos pósteros.

Possuidora do enorme acervo, a Academia pôde dar prumo à sua vida, e, ainda por outro bafejo da sorte, veio avolumar-lhe o patrimônio a doação do Governo francês do palácio de sua sede.

E teve a Academia, então, instalação própria e luxuosa.

(Minhas memórias dos outros, 1935.)

Rodrigo Octávio