A valsa da elegia

Deixem-me passar
Peço-vos licença para escrever
Para escrever para mim mesmo!
É isso, se me permitem, eu quero
engendrar um poema só para mim!
Escreverei do fundo da minh'angústia,
Que da superfície gélida das minhas limitações,
Procuro pontos de vulnerabilidade.
Vejam: despir-me-ei de quaisquer defesas
Quero falar só da minh'angústia:
Ninguém sabe, mas ela é deliciosa!
Não, na realidade ela não nutre o meu viver,
Ela só faz pausa-lo para uma suave depressão.
Nela vejo desejos, sonhos e desilusões;
Vejo-me passar como um ator de teatro
Ator por vezes vilão, outrora herói...
...outrora ainda coadjuvante,
Mas indubitavelmente sem papel definitivo!
Ator que na verdade deseja viver na beira do abismo
Mas justamente por gostar de viver, deseja-o!
Por gostar das verdades, por querê-las ardentemente
Padece, e faz descer as cortinas do teatro
Então o ator se vai, e resta-me somente a platéia
A gritar no meu espírito:
-Escreva rapaz! Escreva, q'é a sua una saída!
No que refuto, quase odiosamente:
Escrevo sim, mas não para escapar!
Escrevo para mergulhar de cabeça e
a fundo na minh'angústia!
Para estudá-la, mensurá-la...
Quiçá até expressá-la!
Mas aí, já é muita pretensão...
Contento-me em somente tirá-la para dançar
a valsa da elegia!

25/06/03

Rodolfo Valente