Culto ao falo

"Se pedíssemos a alguém para dizer qual a coisa mais importante do mundo, em toda sua história, a resposta com certeza seria: o pênis". Li esta afirmação, há muito tempo, em algum livro. E o autor continuava fazendo considerações sobre o órgão sexual masculino. Dizia que um homem pode perfeitamente não se lembrar da forma ou do jeito do seu braço. Pode esquecer um ferimento no rosto, mas nunca esquecerá a forma do seu pênis. Presta-lhe mais atenção do que a qualquer outra coisa. Dedica-lhe mais afagos e zelo do que a qualquer outra parte do corpo. Protege-o acima de tudo. Além disso, é gratificante a todo homem poder se orgulhar do seu pênis - seu tamanho, forma, qualidade e desempenho. Tudo o que corrói esse orgulho corrói o próprio homem. Para ele, o pênis é de suprema importância. Nada que o afeta deixa de afetar o homem na mesma proporção, e vice-versa. E o texto concluía afirmando que se gostando ou não dessa idéia, o homem 'é' o seu pênis. Entretanto, não foi sempre assim.

Durante milênios, a participação do homem na procriação foi ignorada. A fertilidade era considerada característica exclusivamente feminina. Acreditava-se que a vida pré-natal das crianças começava nas águas, nas pedras, nas árvores ou nas grutas, antes de serem introduzidas por um sopro no ventre de sua mãe humana. Mas quando o homem começou a domesticar os animais, percebeu, surpreso, que para a procriação é necessário o sêmen do macho. A partir daí houve uma ruptura na história da humanidade. O homem, enfim, descobriu seu papel imprescindível num terreno onde sua potência havia sido negada.
Nessa época, há mais ou menos 5 mil anos, a fertilidade era tudo, e a fertilidade humana e a dos campos estavam estreitamente ligadas. E o homem se vê transformado em fertilizador da terra. Afirmando que era seu sêmen que implantava a vida no útero da mulher, o homem passou a considerá-la como uma simples caverna protetora. O pênis se tornou, então, objeto natural de adoração e fé religiosa. Na qualidade de 'phallos', era reverenciado da mesma forma que o órgão feminino tinha sido anteriormente.

O fenômeno do culto fálico se espalhou por todo o mundo antigo e é representado em vários monumentos em diferentes lugares. Em alguns templos dedicados a divindades fálicas, o deus esculpido em madeira era visitado com tanta freqüência por mulheres estéreis e esperançosas, que o pênis se desgastava pelo manuseio, pelos beijos, fricções e sucções a que era submetido. Para solucionar o problema, os sacerdotes fabricavam um falo muito comprido, que emergia de um orifício entre as coxas do deus. Quando a ponta se desgastava, eles, por trás da estátua, davam marteladas, empurrando um pouco o pênis.

Entre os romanos encontramos, também, variados ritos de fertilidade. Nas festas da primavera, grandes representações de pênis eram carregadas ao redor dos campos a serem arados. Fertilizar os campos com o sêmen do homem também foi um costume muito difundido.

Contudo, a valorização do pênis ereto e de grandes proporções permanece bastante atual em nossos dias. Sandra, uma estudante de 23 anos, se sentiu constrangida quando foi pela primeira vez a um motel com o novo namorado: "Acho que não fui eu quem o deixou excitado, mas a visão do seu próprio pênis ereto. Ficou tão embevecido, admirando-o tanto, que me senti excluída daquela relação entre ele e seu pênis." Em outro caso, Rita, uma professora casada de 28 anos, que pela primeira vez experimentava uma relação extraconjugal relata o que aconteceu: "Depois que ele ejaculou, tirou a camisinha e não percebeu mais a minha presença. Ficou admirando seu esperma dentro da camisinha e fazendo comentários orgulhosos quanto à quantidade, ao cheiro, e tudo mais". Essas histórias ilustram bem como o culto ao falo, de forma inconsciente ou disfarçada, ainda continua presente.

Regina Navarro Lins