Erotismo ou pornografia?

Pernas de piano terem que ser cobertas por capas para não excitar os homens por sua semelhança com as pernas femininas é patético, não? Mas isso acontecia, há pouco mais de cem anos, na Inglaterra. A moral vitoriana tentava controlar tudo o que considerava pornográfico. Parece mentira, mas até o vocabulário teve que mudar; palavras como suor, gravidez, sexo, tiveram de ser substituídas por termos mais evasivos. As mulheres passaram a descrever o local da dor para os médicos apontando para um ponto semelhante numa boneca. Qualquer parte do corpo entre o pescoço e os joelhos passou a ser chamado de "fígado".

Todos nos divertimos com relatos desse tipo, como se esses fatos traduzissem apenas a mentalidade de uma época distante. Mas não é bem assim. Desde que, há alguns milênios, na cultura ocidental, o corpo passou a ser visto como inimigo do espírito, idéias distorcidas do que é obsceno e perigoso existem, com mais ou menos força, em toda parte. Aprendemos que a imagem do corpo humano nu e, particularmente, experimentando prazer sexual é pornográfica.

O erotismo é aceito. A pornografia é condenada, embora, muitas vezes, o erotismo de hoje seja a pornografia de ontem. Essa palavra, criada em 1769, significava originalmente tratado sobre prostitutas (pornê: prostituída; graphê: escrita), e mais tarde passou a incluir qualquer texto especificamente destinado a despertar o desejo sexual. Entretanto, alguns grupos feministas passaram a considerar pornográfico todo material erótico que levasse à degradação das mulheres. No final da década de 70, foi criada nos Estados Unidos uma legislação antipornográfica que aplicava o termo pornografia somente ao que, de forma sexualmente explícita, desumanizava as mulheres e glamourizava a dominação e a violência.
Não é de se estranhar que nas sociedade patriarcais a mulher seja mostrada como inferior ao homem e agredida sexualmente por ele, nem que para manter a repressão da sexualidade o sexo oferecido pela mídia seja impessoal e de má qualidade. O que não tenho certeza é se o termo pornografia seja adequado para definir esses comportamentos. De qualquer modo, parece tão fluida a fronteira entre erotismo e pornografia, que dificilmente alguém consegue responder de imediato qual a diferença entre os dois. Decidi então fazer essa pergunta aos freqüentadores do meu site. Apesar das definições variadas, ficou clara a tendência a se considerar pornografia como algo obsceno, maléfico.

Claro que houve exceções. Entre elas, os que consideram pornografia e erotismo sinônimos: "Pra mim é sinônimo. Não se fala filme erótico, assim como filme pornô ? Qual a diferença ? As pessoas têm o mau hábito de associar a palavra "pornografia" a baixaria. O sexo, o tesão, o desejo, são coisas lindas. Quem não aprende a gostar disso não sabe viver intensamente !!!" E ainda os que percebem a diferença, mas defendem a pornografia: "O erotismo é uma coisa chata, parece com chuchu (aguado, sem graça, e não tem gosto de nada). Gostar de erotismo é não ter coragem de realizar desejos. A pornografia, por sua vez, quando explorada sem profissionalismo, quando se está entre quatro paredes, é simplesmente 'a materialização do que chamamos tesão'."

Contudo, para a maioria o sexo erótico está relacionado a amor, pureza, espontaneidade, sutileza, sugestão sem mostrar tudo, sensibilidade, fantasias. E o sexo pornográfico seria explícito, público, sem espaço para a imaginação, banal, baixaria, falta de classe, aberração.

Mas, preconceitos à parte, será que na intimidade entre duas pessoas livres sexualmente não haveria nada considerado pornográfico pela maioria? Talvez a diferença entre erotismo e pornografia não seja tão grande quanto parece à primeira vista. E como em matéria de sexo, numa sociedade repressiva como a nossa, qualquer um pode ser acusado e acusador, fico com a definição do escritor Alain Robbe-Grillet: "A pornografia é o erotismo dos outros."

Regina Navarro Lins