|
Vida a dois Será que alguém ainda não percebeu que os modelos tradicionais de relacionamento são insatisfatórios e causam sofrimento? Por que se repetem tanto os mesmos padrões de comportamento? Pouca gente tem coragem de tentar novos caminhos. O desconhecido assusta, dá medo, mas apesar das frustrações quase todos recorrem ao que já é conhecido. No que diz respeito à vida a dois isso quase sempre acontece. Depois de algum tempo, as relações estáveis - e aí tanto faz ser namorado ou casado, morar junto ou não - se tornam tediosas. São tantas regras a seguir, tantas concessões a fazer, que a vida vai ficando sem graça. Quando observamos o silêncio absoluto de um casal na mesa de um restaurante, por exemplo, onde se percebe uma falta total de interesse um pelo outro, fica claro que já não têm mais nada para conversar. E nem percebem, de tão acostumados que estão. Agem como se isso fosse natural. Quanto ao sexo nem se fala. A excessiva intimidade anula a emoção que havia antes, tornando-o mecânico. Mas apesar de tudo os dois continuam juntos, se agarrando um ao outro e à relação, como náufragos aguardando um milagre acontecer. Antigamente, até a década de 60, era muito mais fácil a vida a dois. As expectativas sendo bem mais modestas, se sentir seguro e protegido dentro do lar era o que importava, o prazer sexual não era levado em conta. Além disso, as opções de lazer eram limitadas, não havia nem televisão, nem tolerância social para ousadias existenciais. Hoje, ao contrário, os apelos são muitos. Existem muitas coisas para se descobrir fora do espaço privado da família. Para cada área de interesse são oferecidas inúmeras atividades, e o mais perturbador: é possível conhecer várias pessoas diferentes. Nesta época em que vivemos, ninguém mais está
disposto a fazer sacrifícios só para ter alguém
ao lado. Portanto, é possível que a relação
amorosa fixa e estável com uma única pessoa esteja com
seus dias contados. Para haver chance de se viver a dois sem tantas
limitações, homens e mulheres precisam efetuar grandes
mudanças na maneira de ser e de pensar, para continuar eles
mesmos, preservando sua própria maneira de ser e de pensar.
Total respeito ao outro e ao seu jeito de ser, suas idéias e suas escolhas. Nenhuma possessividade ou manifestação de ciúme que possa limitar a vida do parceiro. Poder ter amigos e programas em separado. Nenhum controle da vida sexual do parceiro, mesmo porque é um assunto que só diz respeito à própria pessoa. Poucos concordam com essas idéias, na medida em que é
comum se alimentar a fantasia de que só controlando o outro
há a garantia de não ser abandonado. Chegamos, então,
a um ponto crucial: para haver uma relação amorosa gostosa
entre duas pessoas, elas têm que estar juntas somente pelo prazer
da companhia um do outro, e não reproduzindo a mesma dependência
emocional que tinham com a mãe quando eram crianças.
Como conseguir isso? O primeiro passo é desenvolver a capacidade
de viver bem sozinho. É descobrir o prazer da própria
companhia. Regina Navarro Lins |