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Amor Romântico
Qual é a propaganda mais difundida,
mais poderosa e mais eficaz do mundo? Coca-Cola? Malboro? IBM? Nada
disso. É a do amor romântico. Ela existe há 800anos,
mas até o século passado, apesar de arrebatar corações,
não podia se misturar a uma relação fixa e duradoura.
Casamento por amor, nem pensar! Impossível de se realizar,
inatingível e tormentoso, nele a pessoa amada é sempre
idealizada.
As histórias de Tristão e Isolda e de Romeu e Julieta
ilustram bem como o amor romântico é regido pela impossibilidade.
Quanto mais obstáculos a transpor, mais apaixonado ele se torna.
Entretanto, em um determinado momento, interesses econômicos
introduziram esse tipo de amor no casamento, transformando toda a
sua história.
Até a Revolução Industrial, no final do século
18, as pessoas moravam mais no campo, junto a vários outros
membros da família, o que fazia com que sentissem afetivamente
amparadas. Os casamentos aconteciam por razões econômicas
e políticas. Por isso é que duravam a vida toda. Não
havendo romance nem expectativa de satisfação sexual,
não havia decepções, e ninguém pensava
em se separar.
Mas as fábricas e os escritórios que surgiam foram atraindo
os homens para trabalhar nos centros urbanos. Nasceu, então,
a família nuclear - mãe, pai, filhos - , agora sozinhos
na cidade. Para que o casal suportasse viver assim, longe daqueles
com quem tinha laços afetivos, inaugurou-se o amor romântico
no casamento.
Atualmente existe uma campanha, incorporada por todos os meios de
comunicação, que procura nos convencer de que só
é possível ser feliz vivendo um romance, que traz a
ilusão do amor verdadeiro. Tão grande quanto o desejo
de vivê-lo. Por isso, poucos suportam ouvir que, apesar de toda
a magia prometida, ele não passa de uma mentira. Sem contar
que traz mais tristeza do que alegria, além de muito sofrimento.
Desde que nascemos nos empurram o amor romântico goela abaixo,
como se fosse um pacote econômico do governo. Não se
discute, cumpre-se. Uma criança de um ano, por exemplo, já
toma sua sopinha com a babá, assistindo à novela das
sete. Na hora de dormir, a mãe conta a história de Branca
de Neve ou Cinderela, e assim por diante.
Todas expectativas e idéias do amor romântico são
passados como uma única forma de amor, e aprendemos a sonhar
e a buscar um dia viver tal encantamento.
Entretanto, são várias as mentiras que o amor romântico
impõe para manter a fantasia do par amoroso idealizado, em
que duas pessoas se completam, nada mais lhes faltando. Entre elas
estão afirmações absurdas como:
-Só é possível amar uma pessoa de cada vez.
-Quem ama não sente tesão por mais ninguém.
-O amado é a única fonte de interesse do outro.
-Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira.
-Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver
presente.
-Todos devem encontrar um dia a pessoa certa.
Como nenhuma delas corresponde à realidade, em pouco tempo
de relação vêm a decepção e a frustração.
No amor romântico idealizamos a pessoa amada e projetamos nela
tudo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos que
ela fosse. Não nos relacionamos com a pessoa real, mas com
a inventada. É claro que, na intimidade da convivência
do dia-a-dia, para manter a idealização a conseqüência
natural é o desencanto. É por isso que se faz tanta
música de dor de amor. E, para completar, todo mundo adora.
Regina Navarro Lins
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