Bebeu, um brasileiro

- Trocadim.

Todos são indesejados por todos. Alguns são refugos que de abortos malogrados, devido à imperícia de aborteiros, escaparam. Ou também, malogrados, malgrado o desejo de miseráveis mães. Estas sequer conheceram o local do matadouro do ofício matador. Outros são filhos de nada: nem de puta. Resultaram, provavelmente, de gerações espontâneas sucedidas em depósitos de lixo, em aterros sanitários ou nas águas poluídas do que já foi um rio, um riacho, uma lagoa. Ou então, de varejeiras cujos ovos ali eclodiram.

Bebeu teve sorte: era filho de puta. Sua concepção resultou de uma comercial transação. Um escambo: corpo por álcool. Até hoje ninguém soube o seu nome, verdadeiro nome - nem o do registro oficial, nem o de batismo. No primeiro caso, porque não foi registrado No segundo, porque não foi batizado.

- Trocadim.

Bebeu, apesar dos seus doze anos, trabalhava. Suas empresas se localizavam em dois cruzamentos: O Cruz Pesada e o Fogo Cruzado. Tempos melhores já houve. Mais fácil sobreviver tinha sido. Com a queda do Muro de Berlim, porém, a modernidade veio. A clientela ficou mais exigente. Refrigerou-se. E alevantados os vidros foram.

- Trocadim.

Já era. Era de dinossauros. Havia que inovar. Ser criativo. Seguir a tendência da economia de mercado. Globalizar-se. Elaborar uma estratégia de marketing mais agressiva. Vencer a concorrência. Investir.

Bebeu teve de escolher: tornar-se Neoliberal ou Neobobo. Escolheu a primeira opção. Empregou todo o seu capital de giro num lavajato. Um dispositivo aspersor adaptado a um rodo. Tecnologia de ponta. Equipamento de última geração.

E progrediram as empresas. Com a reformulação das leis trabalhistas tudo ficou mais fácil. Mas ele preferiu tornar ainda mais, praticando o chamado informal mercado. Graças a isso, Bebeu criou mais quatro postos de trabalho, resgatando do desemprego um irmão de sete anos, outro de nove e dois primos: ambos de dez.

Dizem que o que é bom, pouco dura bom. De média classe "A" a classe média passou a média "B" e, depois a "C". Era a principal clientela do empresário. Então, a rua arruinou ruim e Bebeu foi à ruína. E dizem também que sempre vem só a desgraça, mas atrás dela as companheiras seguem. E Bebeu bebeu . E Bebeu cheirou. E dizem que assaltou. E matou.

O tempo... Hoje o empresário de ramo mudou. Atua, agressivamente, numa não pouco lucrativa econômica atividade. Tornou-se fornecedor dos produtos que ele mesmo consome também. E um império criou. E gere o seu empreendimento sem de "casa" sair - uma concessão estatal para empreendedores temporariamente malsucedidos.

Raymundo Silveira