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A Resposta
- Pai, pra que qui foi qui Deus fez nós? A menina tinha quatro aninhos. O pai estava lendo o jornal. Primeiro tentou dar uma de senhor Rodrigues, o personagem de Plebiscito: fez que não ouviu. - Pai, escuta. Pra qui foi qui Deus fez nós? A surpresa foi maior do que o desconcerto. Nunca imaginou que uma criança daquela idade fizesse este tipo de questionamento... Tivesse essa preocupação. E agora? Pensou. O senhor Rodrigues encontrou um dicionário. Mas dicionários não costumam esclarecer determinadas dúvidas. Então, pensou em Adão e Eva. Não! Não vou contar a minha filha uma lenda na qual nem eu mesmo acredito. Seria pior do que hipocrisia. Seria empulhação. Depois, pensou em Lamarck. E em Darwin. É. Também não dava. Uma menina de quatro anos, a menos que fosse um gênio, não ia mesmo entender nada. De tão desconcertado, folheava o jornal como se, de repente, algum articulista inteligente e adivinho, tivesse tido uma premonição e quisesse tirá-lo daquele embaraço. - Minha querida. Deus nos fez porque quis. Ele é o Todo Poderoso. O Nosso Senhor absoluto. Então, pode fazer o que quiser. A menininha fingiu entender, calou e se retirou. Parece que intuiu a sinuca de bico em que deixou o pai. Na consciência deste ficou um vácuo. Uma espécie de remorso. Como se tivesse, não ludibriado, mas procurado o caminho mais cômodo para se livrar das indagações existenciais daquele pingo de gente. Aquilo ficou martelando. Não posso continuar assim. Tenho uma dívida para com a minha filha. Tenho de ser honesto. Tenho que dizer: Minha filha, papai não sabe. Promete que vai perguntar a alguém que saiba. Ele não disse isso à criança. Porém, naquela noite, encontrou casualmente um sacerdote amigo. E contou o acontecido. Menos por esperar um esclarecimento do que para externar sua surpresa e desapontamento. Não lhe passava pela imaginação que o padre tivesse uma resposta tão simples. - E você, o que disse? - Saí pela tangente padre. Fiquei confuso. Não soube o que dizer. E agora sinto que devo a ela alguma explicação. - Pois errou muito. Devia ter dito a verdade: para amá-Lo e servi-Lo neste mundo. E gozar para sempre no outro. - Ah, sim, Padre... É mesmo. Nem me lembrava mais... "A literatura é uma das possibilidades da felicidade
humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de
felicidade aos leitores".
Raymundo Silveira |