Rastafari

Negro, vinte e cinco anos. Caminhava gingando. Pisando na ponta dos pés. Apesar do cansaço, ao perceber que chamava atenção, exagerava. Tranças rastafari. Roupas jeans gastas, rasgadas, desbotadas. Era pleno dia. O sol lançava rajadas de luz e calor. Mesmo assim, assustava. Os que se consideravam brancos: "Assaltante, com certeza. Não me engana. Sinto o cheiro de longe".

Morou numa favela tão favela que servia de modelo para a curiosidade de turistas estrangeiros. Os guias de viagem anunciavam que conhecê-la era uma experiência fascinante. Com certeza, era. Eras imemoriais já mostravam isso mesmo. O sofrimento alheio sempre foi. Não raras vezes, exultante. Conversava. Mas, quase não falava. O interlocutor tinha de se esforçar para que as palavras não lhe escapassem. Porque pareciam sair-lhe da boca, voando. Como borboletas esquivas que se tenta, em vão, capturar.

Dentro da favela, praticamente, não havia distinções. A comunidade era considerada homogênea. Todos criminosos. Em disputa por melhores roubos e assaltos. A espera de melhorias de vida. A perseguição da Polícia aos bandidos era implacável. Astuciosos, os policiais eram tão cruéis quanto os marginais.

Se sonhasse com o que viria a ser a sua existência, sentiria saudades do amanhã. Certa vez, foi preso e torturado. Depois, o puseram numa cela com prisioneiros perigosos e com um jovem gordinho cuja prisão parecia também ter sido a primeira. Havia um criminoso chamado Barrão. E entendeu de estuprar o rapaz. Gritava e se batia. Gritou mais alto ainda. Depois se calou. Quando o Barrão tirou, saía muito sangue. O gordinho parecia ter morrido: não falava e nem se mexia mais. Depois queria que ele chupasse pra limpar a merda e o sangue. Recusou. E ameaçou reagir. O Barrão disse que só estava querendo experimentá-lo. Que já tinha gozado. Que só queria ver se ele era macho mesmo. Não dormiu durante a noite.

Desde quando se entendeu por gente se sentia uma pessoa diferente. Embora fosse filho adotivo de um casal de classe média, os meninos brancos o evitavam. Ao atingir a idade escolar, o pai reservou matrícula, por telefone, num colégio de padres. Ao comparecerem para a entrevista, o diretor pediu mil perdões: "Infelizmente, o funcionário que atendera o telefonema era novato. Ignorava que as vagas já tinham sido completadas. Que lamentava muito o ocorrido. O empregado seria exemplarmente punido". Não entendeu nada daquilo e se pôs a chorar. Depois que a mãe morreu, o pai se tornou alcoólatra. Mais tarde, desempregado. Vieram, então, rua e ruína. E, a seguir, favas e favela. Pensava nisso, enquanto amanhecia. Um galo cantava a alegria. E ele soluçava a desgraça. Só então, seu corpo foi posto em liberdade. A alma não.

Tinha consciência da escuridão da vida. Mas não a amaldiçoava. Tampouco acendia velas... Sentia que era inútil buscar no hoje, a solução para os problemas do ontem. Preferia armar, às cegas, as incógnitas da equação do futuro. Tinha também consciência do quanto valia e das suas limitações. Jamais se preocupou em amealhar. Sabia que só existia um caminho: o intelecto. Como era portador de média inteligência, e estava ciente disso, restava-lhe a opção do esforço. Mais nada. Decidiu estudar medicina. Sabia que, nesta profissão, quase sempre só enriquecem os ignóbeis. Por outro lado, para quem quisesse apenas sobreviver, bastava possuir meia dúzia de ferros e borrachas. E um miolo, cheio de vontade de aprender, guardado, grudado dentro da cabeça. E só o perderia em duas circunstâncias: se ficasse louco ou morresse.

Naquela manhã em que passava gingando e que o olhavam temerosos, vinha saindo de um plantão noturno. Estava muito cansado. Passara a noite inteira operando. Mesmo assim sorria do medo das pessoas. Quando se praticou qualquer ação que resultou em benefício para algum semelhante, nada pode assustar. Não precisa ser religioso, confessar-se ou comungar. Na verdade, nem acreditar em Deus. A sensação é de leveza. O cansaço físico pode até ser mil vezes pior do que o de um milionário que acabou de transportar, pra dentro de casa, toneladas de ouro nas próprias costas. Só que a sensação de riqueza é milhões de vezes maior. Caminhava gingando. Pisando na ponta dos pés. Tranças rastafari. Roupas jeans, gastas, rasgadas, desbotadas. Mal dormido. Cansado. Muito cansado. Mas levitava.

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
(Clarice Lispector)

"Ler Clarice é ter uma experiência da qual nunca se sai ileso. Ler Clarice deixa seqüelas, marcas eternas no leitor".
(Renata de Albuquerque)

Raymundo Silveira