Você tirou quatro dez ou quatro dezes?

Hoje perguntei à minha filha caçula: "Fillipa, quantos dezes você já tirou este ano na sua escola?" "Dezes, pai? Diabéisso?". É muito curiosa esta nova geração, minha filha não entendeu que eu falava o plural do numeral "dez", mas eu tinha de entender o que significava Diabeísso. "Ora, minha querida, claro que estou convencido de que você tirou mais de um dez; não é possível que você tenha deixado de ser a primeira da classe durante esses meses, pois no ano passado você tirou inúmeros dezes". "Este ano já tirei várias notas dez, mas dezes, certamente, nenhum; parece uma palavra nojenta; parece fezes". "Veja se estou acompanhando bem o seu raciocínio: sempre que eu me referir a um único dez, posso perfeitamente suprimir a palavra nota, porém de dois 10 em diante os numerais têm compulsoriamente de ser antecedidos dela: estou certo?" "Ela pensou bastante e respondeu: "sabe que agora o senhor me confundiu toda? Sinceramente, não sei. Nunca ouvi falar noutro caso em que uma palavra no singular pode ser pronunciada isoladamente, mas quando for para o plural teria obrigatoriamente de arrastar outra atrás dela." "Então como é que ficamos, retruquei, você tirou várias notas dez, um só dez ou vários dezes?"

"Tudo bem, concordo com você que deverei sempre dizer quantos dezes eu tirei ou vou tirar. Tomara que sejam cem dezes". "Minha filha, sabe o que acabei de pensar? Se no lugar de"dez", a nota máxima fosse "cem" e supondo que você tivesse tirado dezenas delas como eu deveria lhe perguntar: quantos cem ou quantos cens você tirou? E se fosse vinte a maior nota? E se fosse cinqüenta, seriam quantos vintes e quantos cinqüentas também?" "Bem, claro que não haveria diferença alguma em pronunciar dezes, vintes ou cinqüentas, mas cens é meio muito, não?" "Não, não acho nem meio nem todo muito, acharia um pouco muito (será que existe pouco muito?) se tivesse de lhe perguntar: filha, quantos miles você tirou? Isto poderia até atrair a atenção de ladrões de automóveis ou de fiscais do imposto de renda, pois se algum deles ouvisse a nossa conversa ficaria de olho em você, achando que teria sido contemplada num imenso consórcio ou ganhado um grande prêmio, ou, quem sabe, suspeitasse de que você também fosse puxadora de carros."

"Pai, pra que você começou esta conversa? Começamos falando em simples notas escolares e já estamos falando em roubo de veículos." "Minha filha, se tivéssemos de evitar abordar um assunto porque ele é difícil e complicado jamais teríamos que pensar e, portanto, não seríamos gente. Já imaginou como se chegou às grande descobertas? Quantas horas de trabalho e de raciocínio Thomas Edison teve de gastar para descobrir uma mísera lâmpada?" "É, mísera agora, mas se ponha no lugar dele que partiu do zero e..." "Pois tá bom, então me explique uma coisa tão simples que não precisa nem pensar muito e nunca ninguém se preocupou em perguntar até hoje: por que às vezes nós temos de soprar para acender o fogo e em outras, temos de soprar para apagá-lo?" "Não senhor, agora era a minha vez de perguntar: por que embaixo a gente escreve emendado e em cima, separado?

"Sei não, mas tenho uma suposição: como você sabe as palavras são o resultado da fala ou da escrita de um povo, sendo assim, um autor famoso da língua portuguesa deveria estar com a sua máquina de escrever avariada. Daqueles tipos de avaria que vão e voltam; o defeito cessa e imediatamente torna se manifestar. Entendeu até aí?" "Claro que entendi, só não sei o que isto tem a ver (aliás, é tem a ver ou tem a haver? Fica pra depois), só não sei o que o defeito de um máquina tem a ver, ou a haver com embaixo e em cima". "Pois preste bem atenção: quando o autor, talvez um clássico, talvez o próprio Camões...Que Camões, Camões não! No tempo dele ninguém nem sonhava que poderia vir a existir algum dia uma máquina de escrever. Suponha que o primeiro grande autor da nossa língua que utilizou uma máquina de datilografia, ao escrever embaixo o carro dela funcionou normalmente, mas quando escreveu em cima, deu aquele pulinho chato que as máquinas de escrever costumavam dar... Ah filha, que exemplo péssimo esse meu. Nem me lembrava que você nunca viu uma máquina de escrever..."

Raymundo Silveira