| A corda do enforcado
Dizem que guardar em casa corda de suicida vítima de enforcamento dá muito mais sorte nesta vida do que ser amancebado. O auxiliar de necrópsias Vicente Justino acreditava muito mais nisto do que nos castigos divinos e na proteção ou na maldição do demônio, por isso, embora já vivesse naquele estado civil preconizado pelos supersticiosos, ansiava também pelo laço no pescoço de um enforcado - qualquer enforcado. Buscava este objetivo, obsessivamente, do mesmo modo de um jogador inveterado que é capaz de vender tudo, inclusive a própria mãe, para apostar numa roleta de cassino, confiando cegamente em ganhar muito dinheiro. Afora este ideal, Justino só cultivava um passatempo - criar gatos. Mantinha em casa duas dezenas de felinos aos quais dedicava todas as suas horas vagas. Agamenon Nobre tinha 57 anos, media um metro e sessenta e sete centímetros de altura, pesava 154 quilos, era esquizofrênico e há cinco dias estava sumido. Já não era nenhuma novidade para Justino, de tanto ouvir os médicos legistas comentarem, que sumidura de doido era quase sempre suicídio por enforcamento; bastaram essas informações para pôr o homem mais excitado e nervoso do que corretor de Bolsa de Valores em dia de pregão agitado. Largou tudo, tirou três dias de licença médica e se mandou pelos arredores da cidade à procura do tão almejado troféu. Já havia caminhado em círculos o dia inteiro quando avistou uma nuvem de urubus sobrevoando uma clareira na caatinga e correu para lá com o mesmo ímpeto de um andarilho sedento num deserto que acaba de avistar um oásis. O espetáculo que deparou era horrendo, mas nunca para ele que estava habituado a todos os horrores que se seguem à decomposição de um defunto. Aquela enormidade pastosa e hedionda pendia de um galho grosso e talvez sugerisse um boi inteiro apodrecendo dependurado do gancho de um açougue do Inferno. Não se distinguia nenhuma forma humana, pois todo aquele volumoso corpo gordo inchara a ponto de arrebentar, especialmente na região corresponde àquela que um dia já se chamara ventre. A excitação de Justino atingira o limiar da tolerância psicológica e podia ser comparada à de um nervoso traficante de muitos quilos de cocaína que tivesse acabado de se esquivar da fiscalização policial e aduaneira ou à de algum garimpeiro na selva que depois de dois anos infrutíferos batendo bateia, achasse subitamente inúmeras pepitas de ouro. Naquele momento não conseguiu se conter e agitou o tronco do arbusto com tamanha violência, que lhe desabou sobre a cabeça, salpicando também todo o resto do seu corpo, uma torrente de gosma horripilante contendo vários tons de cores escuras que iam do marrom chocolate ao pardo dos molhos das galinhas à cabidela; do castanho escuro das telas de Münch, ao amarelo ocre das gemas de ovo podre; do verde-musgo ao verde-negro de bile da atrabílis. Se todos os exemplares do mercado de peixes da cidade norueguesa de Bergen apodrecessem de uma só vez, não federiam tanto quanto aquela montanha mole, úmida e medonha. Justino permaneceu quase tão indiferente àquela podridão como se um automóvel tivesse salpicado ligeiramente o short de um andarilho com gotas de uma pequena poça d´água: passou apenas um pente no cabelo e sacudiu da roupa as nódoas daquele suco de cadaverina e putrescina e a seguir escalou a árvore, cortando com uma faca afiada o laço da corda de náilon que envolvia o galho e escutando, satisfeito, o baque do defunto ao atingir o solo, espalhando podridão na direção de todos os pontos cardeais. Desceu da árvore com agilidade felina, desatou a porção da corda que envolvia o pescoço do enforcado, retirou os outros dois metros, enrolou-os cuidadosamente, beijou aquele novelo asqueroso como um campeão olímpico que acabasse de ser condecorado com uma medalha de ouro e correu em direção à sua casa. Até hoje ninguém sabe ao certo se tudo o que aconteceu depois ao Justino se relacionava ou não, direta ou indiretamente, com o seu macabro despojo, mas tudo em sua vida passou a suceder de modo estranho, e se algum mestre famoso se interessasse em reproduzir a sua história num painel do tamanho e da beleza das Sete Primaveras, de Boticceli, por mais que se esforçasse, somente lograria criar uma Guernica ainda mais pavorosa do que a de Pablo Picasso. Durante o semestre que se seguiu à conquista do seu tão cobiçado amuleto, perdeu o emprego, foi corneado pela amásia, morreu-lhe a filha mais velha e o mais jovem contraiu leucemia. Morreram, também, quase todos os seus gatinhos; os raros que sobreviveram fugiam dele espavoridos. Entregou-se à bebedeira; quando ele passava tombando e invectivando contra Deus e o mundo, os moleques faziam assuadas, puxavam-lhe os fundilhos da calça e atiravam-lhe pedradas. Quando a vida se tornou absolutamente insuportável e, num dia de excepcional depressão, Justino se enforcou com a mesma corda e na mesma árvore que tantas esperanças lhe trouxeram alguns meses atrás. A multidão de circunstantes que assistia à descida do corpo, realizada pela polícia, disputava a tapas aquele pedaço de corda de náilon. Raymundo Silveira |