| Logo vi... é mulher!
"...E então, envolvidos na fragilidade própria dos machos, os respectivos
cavalheiros, senhores absolutos da verdadeira ignorância cultural
a que são submetidos, apedrejaram-na até a morte."
"Eu logo vi, só podia ser mulher! Sai do meio, égua escrota. Vai aprender a dirigir, sua puta! Se tu deres marcha à ré eu desço e te dou umas porradas, sacana". Era mais ou menos meio dia de uma segunda-feira; o calor do sol, absorvido pelo asfalto, fazia o clima parecer o de uma fornalha; o fluxo do trânsito era igual ao de uma "procissão do Senhor Morto", cujo andor parecia estar sendo transportado nos ombros de anciãos, irmãos do Santíssimo Sacramento. O congestionamento se prolongava por mais de três quilômetros.
Raquel ainda pretendeu avançar, mas o sinal amarelo já estava em vias de mudar e ela se viu compelida a brecar subitamente o seu fusquinha exatamente em cima da faixa de pedestres. Tinha 36 anos, era uma pequena empresária, divorciada, tinha três filhos pequenos e não recebia nenhuma pensão alimentícia para si, nem para as crianças. Para variar, a sua situação financeira não era muito diferente da de outras mulheres em condições idênticas às dela. Seu cheque especial estava sempre ultrapassando o limite; o cartão de crédito vinha sendo pago, mas em parcelas sobre as quais incidiam juros extorsivos; enfim, a "rolagem" da sua dívida era parecida com a do seu país, com a insignificante diferença de que Raquel não era um país.
Ao brecar o carro sobre a faixa de pedestres, o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi ter de aguardar para dentro de três ou quatro dias, a chegada pelo correio, de uma "mensagem" do Detran notificando-a de que os seus computadores registravam um "presentinho" para ela que deveria ser apanhado dentro de um mês, se acaso não desejasse que ficasse guardado para o próximo ano rendendo juros e correção monetária. Assim pensando, Raquel, instintivamente, engatou uma macha à ré, mas não chegou a tirar o pé da embreagem. Antes disto, teve de escutar aquelas carinhosas palavras "sussurradas" por aquele gentil cavalheiro que vinha num veículo importado atrás do seu fusquinha.
Com o coração disparado por causa de uma mistura de frustração, medo, angústia e calor, Raquel pôs a alavanca de mudanças em ponto neutro e pôs-se a rezar, pedindo a Deus para que nenhum guarda de trânsito estivesse presente naquelas imediações e que o sinal mudasse logo para o verde. As calçadas estavam apinhadas de circunstantes - quase todos, homens; a maioria manifestava apenas curiosidade, mas alguns pareciam se divertir. Dois destes comentavam entre si: "Não poderia ser diferente; automóvel não foi feito para mulheres, pelo menos para ser conduzido por elas; desde que se inventou esta moda de mulher dirigir, o trânsito ficou esta merda que aí está; o cara tem toda razão, se ela tivesse dado marcha à ré de onde iria tirar grana para pagar o prejuízo do cavalheiro? Seguro? Só se ela se segurasse no pescoço de algum macho que possuísse muito dinheiro". E se riam.
"Não! Não é bem assim", opinou um terceiro, "o que sucede é que elas são excessivamente cuidadosas e, no afã de evitar acidentes, acabam por provocá-los. Lá em casa a mulher veio com uma conversa de se matricular numa escola para aprender a dirigir, mas eu cortei logo o mal pela raiz: 'no dia em que tu pegares no volante de algum veículo ao sair de casa, por favor, não voltes, pois aqui não entrarás nunca mais'. Comigo é assim". Mais um outro resolveu se manifestar: "E não é só isto, não: mulher dirigindo, boa coisa não pode andar a fazer. Mulheres que guiam automóveis são cantadas, pois os homens pensam que todas são putas, com justa razão, pois como sabemos, não existe mulher forte, existe cantada fraca".
Raquel escutava tudo aquilo sem poder dizer um "ai", e a sua frustração, angústia, impotência, se transformavam num autêntico ódio por ter nascido mulher. Fora casada durante oito anos e só conhecera humilhações. Desde criança se sentia inferior ao irmão, pois somente este era considerado como tendo um futuro radioso. Já se habituara com aquilo, até o dia em que, aos 15 anos, durante uma aula, um professor falou, com a autoridade e sapiência de que todo mestre é possuidor, que as mulheres sofriam de um complexo chamado "inveja do pênis". Raquel nunca sentira esta inveja. Quando, depois da aula, procurou o professor e lhe disse isto, este se riu e retrucou: "sentiu, não, querida, você sente; só que é um processo inconsciente e você não pode perceber." "Mas professor, não pode ser..." "Minha filha, você quer ir contra o maior homem do século XX que descobriu e escreveu tudo sobre os segredos da mente humana? Será que tem mesmo a audácia de ir contra Freud? Era só o que faltava!"
Raquel se calou, mas aquele episódio lhe marcara para sempre. "Vou dedicar toda a minha vida a fim de demonstrar como isto é uma grande mentira criada pelos homens". Seu ideal era estudar Engenharia Química, primeiro porque era esta a sua disciplina predileta; depois, porque escutara que aquela era uma profissão tipicamente masculina e ela pretendia demonstrar o contrário. Era em tudo isto que pensava enquanto a impaciência a levava a roer as unhas porque o farol parecia que nunca mais iria deixar de estar vermelho. Relembrou também que o seu sonho jamais se concretizara. Em cada porta que batera encontrara sempre um obstáculo. O primeiro deles começara dentro da sua própria casa. O pai - e a mãe - passaram a cultivar uma espécie de ojeriza contra aquilo a que chamavam de sua obsessão doentia; os professores, os colegas - e as colegas - continuavam a sorrir ironicamente quando ela manifestava este propósito; em todas as instituições comunitárias a que recorria encontrava sempre uma resistência, uma zombaria, uma ironia, quando não, um sarcasmo; alguns passaram a chamá-la "Madame Curie dos Pobres". Enquanto recordava tudo isto a "porra do sinal" continuava vermelho. De repente, acendeu o farol verde e o carro estancou. Acabara a gasolina.
Raymundo Silveira
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