| O frade de pedra
"Talvez vocês, meus juízes, A cerca de cento e vinte quilômetros de uma capital do Nordeste existe um frade de pedra ajoelhado, como se estivesse eternamente a rezar. Há alguns anos havia ali, em seu lugar, uma Esfinge. Contam que um frade, de carne e osso, de aproximadamente, cinqüenta e poucos anos de idade, se aproximou da Esfinge, por mera curiosidade, e esta não teria gostado da atitude do religioso. "Pois bem, frei; já que foste tão curioso vou te propor um enigma. Se decifrares, irei te contar toda a minha história; do contrário, eu tomarei o teu lugar e tu o meu; ou seja, tu te transformarás em pedra e eu num animal de carne e osso". Surpreendido por aquele inusitado fenômeno, e ainda mais por causa daquele estranho desafio, o frade quis recuar. "Se tentares fugir eu te devoro!" Diante de tais circunstâncias, o religioso não teve alternativa se não escutar o enigma da Esfinge. "Tens meia hora para pensar, ó curioso. O que pela manhã é um cordeiro; ao meio dia, uma fera domada; e à noite é um boi manso?". O coitado do monge pensou muito, mas, ao cabo de trinta minutos, não soube responder. "Pronto, ó bisbilhoteiro! Teu tempo já se esgotou. Mas antes de te transformar numa pedra irei satisfazer a curiosidade que também tens quanto à solução do enigma: és tu mesmo!" "Como assim?" Retrucou o frei pleno de surpresa e pálido de terror. Escuta bem. Essa história não irá te servir para nada, mas a tua curiosidade ficará satisfeita. 'Manhã, tarde e noite' são, figuradamente, três etapas da tua existência. Desde quando nasceste, até o início da tua puberdade, tiveste a tua manhã e possuías a placidez da inocência. Tudo na tua vida era esperança e alegria. O mundo para ti foi nada menos do que o Éden; o jardim do Paraíso. Se, acaso, te deparaste com algum obstáculo, todas as pessoas te ajudaram a superá-lo. Deves estar lembrado da festa que fizeram quando completaste os teus cinco anos. Possuo o dom de penetrar na mente humana. Agora mesmo, vejo projetadas no teu pensamento as lembranças daquela festa. Percebo que te recordas da hora exata, da casa, do lugar, dos convidados e até da canção que alguém cantava e tu escutavas maravilhado. Vejo também os teus sonhos e as tuas ilusões; o mundo era só teu e as outras pessoas não passavam de figurantes da peça de teatro, com final feliz, que seria toda a tua existência. Tinhas, portanto, um comportamento mais do que sereno. Eras, por conseguinte, um cordeiro". "Quando completaste doze anos, o que corresponde ao início do teu meio dia, te internaram num convento. Tu mesmo ansiavas para ser internado. Tornar-se uma pessoa religiosa era, para a tua alma ingênua e imatura, o cúmulo da felicidade. Então não deves sentir nenhum ressentimento de quem te ajudou a assumir esta opção. Pelo contrário, só tens a agradecer. Sucede, caro "irmão" que na vida humana quase tudo é o contrário do que parece. A tua escolha foi um desastre; o teu fracasso era inevitável. "Escuta bem: até o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica se diferenciava pouco ou quase nada da época do Concílio de Trento realizado no século XVI e cuja finalidade primordial era a de combater as heresias protestantes lideradas, principalmente, pelo frade alemão Martinho Lutero. Isto significa dizer que, quem de algum modo esteve intimamente envolvido com as atividades da Igreja Romana desde 13 de Dezembro de 1545 até o dia 10 de Outubro de 1962, quando teve início oficialmente o segundo evento, viveu praticamente sob os mesmos ditames, sob as mesmas leis, sob os mesmos dogmas e, conseqüentemente, sob a mesma disciplina. Infelizmente, tu és uma destas pessoas. "Todas as tuas leituras eram fiscalizadas, tuas cartas censuradas, praticamente todos os teus hábitos controlados passo a passo em comum com os de outros indivíduos, cujos temperamentos eram, obviamente, heterogêneos e, portanto, diferentes dos teus. Pode-se dizer, por conseguinte, que foste, de certo modo, um "contemporâneo" de Galileu Galilei. Mais do que isto, viveste sob um regime, não igual, mas certamente um pouco assemelhado, ao que também viveu, padeceu e morreu o filósofo italiano Giordano Bruno. Certo que não havia nenhuma punição física, mas, às vezes, os castigos e as repressões psicológicos queimam com intensidade igual ou até superior às chamas tangíveis. E o que é mais grave, mais cruel é que nunca estiveste preparado para aceitar tudo aquilo. "No educandário religioso onde estudaste, teoricamente, o ano letivo se iniciava a oito de Fevereiro de cada ano. Teoricamente, porque, na prática, os três primeiros dias não poderiam ser chamados de "dias letivos", a menos que se considerassem assim, horas a fio dedicadas inteiramente a cultos religiosos durante os quais a tônica era sermões ameaçadores destinados a reprimir a ferro e fogo o teu instinto sexual. Na peça dramática "O Santo Inquérito" existe uma cena em que um religioso é salvo de um afogamento através da respiração boca a boca praticada por uma linda camponesa. O afogado, depois que foi salvo, experimentou uma situação conflituosa tão intensa, entre o desejo que aquela mulher lhe despertara e a repressão subliminar nele infundida pela Igreja, que só se aplacou quando ele a denunciou à Inquisição e a mulher acabou morrendo na fogueira. Isto, obviamente, é uma ficção, mas fornece uma idéia aproximada do que significavam, para ti, aqueles cultos a que chamavam Retiro Espiritual. Entretanto, teu temperamento era incompatível com aquilo, e mesmo assim, te deixaste subjugar. Eras, então, uma fera domada e enjaulada. "Agora estás a viver a tua noite. O mundo deu uma guinada de 180 graus. Os homens aos quais devias cega obediência são outros. Muitos deixaram o sacerdócio. E naqueles "retiros" do convento te ensinaram que tais pessoas seriam apóstatas. Um apóstata jamais seria perdoado. A condenação eterna era o único destino possível para elas. E isto te infundiram a ferro e fogo, como se faz a uma fera acuada. Por outro lado, hoje, os teus superiores cometem a tal apostasia como quem muda de burel. Só não seguiste o mesmo caminho porque, de tudo aquilo a que dedicaste praticamente toda a tua vida, te restou a tua Fé. Assim mesmo, às vezes chegas a vacilar, pois ela já não é mais aquela que julgavas ser capaz de transportar montanhas. Isto aconteceu porque és homem. E nenhum homem está isento da influência do meio onde vive. Quando olhas para trás e te perguntas se tudo valeu a pena, a resposta já não é mais aquela mesma que deste no dia da tua ordenação sacerdotal. És, portando um homem angustiado. E ainda assim tu tens sorte, pois muitos dos teus companheiros são indivíduos absolutamente frustrados. Para não falar daqueles que enveredaram pelo caminho que o teu confessor te ensinou que seria o do fogo eterno. Nesta noite da vida, não passas, portanto, de um boi manso; um touro castrado usado no trabalho de carga. Um indivíduo passivo, fleumático, acomodado. Não tens nenhum futuro aqui na Terra. A única esperança para ti; a única tábua de salvação, estará na existência, de fato, de uma vida eterna plena de gozos celestiais, tal como te fizeram acreditar quando eras uma fera domada e enjaulada. Agora, se desejares dizer as tuas últimas palavras, diz logo, porque irei te transformar numa pedra." O frade escutou tudo aquilo calado. Quando a Esfinge se calou também, a princípio ele pensou um pouco, mas logo respondeu."Estás completamente enganada, ó Esfinge. De tudo o quanto falaste só uma coisa é verdadeira: a sobrevivência da minha Fé. Também é verdade que sinto meus momentos de dúvida e de fraqueza como todos os homens. Porém sou um homem feliz em relação à maioria dos outros. Não sinto o pavor da aniquilação total. Assim, além da minha Fé, tenho Esperança. E mais, ó Esfinge tento praticar a Caridade, cuja recompensa não espera por outra vida. A Caridade que se faz é recompensada aqui mesmo na Terra através de uma consciência tranqüila. Posso abjurar os meus votos sacerdotais; posso me tornar um apóstata como disseste. Posso até mesmo perder a minha Fé e a própria Esperança na vida eterna, mas o conforto que me traz a prática da Caridade, este jamais alguém haverá de me tirar. Mas para te provar como a minha Fé continua firme; que ela ainda é capaz, não só de transportar, mas também de dar a vida a pedras e a montanhas, vou te transformar - através dela - num irmão; num religioso; num monge de carne, osso e burel. Quero, portanto, te tornar numa pessoa igual a mim a fim de sentires como sou feliz e para seres feliz também como eu o sou. Só há uma condição: que renuncies para sempre a este comportamento ridículo de viveres desafiando as pessoas através de simplórios enigmas. Se te recusares, continuarás a ser Esfinge. E se ousares tentar me burlar depois que eu te transformar num irmão, voltarás a ser de pedra. Não mais como Esfinge. Mas como um Frade de Pedra".
Raymundo Silveira
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