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A Reima O Sebite sacou uma das peixeiras da cintura, saltou na minha frente, como um gato diante de um rato e falou com a sua voz de falsete: "te prepara pra morrer, cabra da peste". Havia apenas quatro semanas que eu conhecera o Sebite, quando ele se juntou ao nosso bando por determinação do Carrasco, que se gabava de conhecer cabra valente à primeira riscada de faca, mas eu já sabia de tudo o quanto ele era capaz, pois o Macaco já convivera com ele no bando do Antônio Silvino e me passou todo o serviço. Sebite nem se mexeu quando o Carrasco o experimentou riscando-lhe o peito com a ponta afiada de um punhal de vinte polegadas. Acho que nem carece mais dizer que o Carrasco era o chefe do nosso bando. Não tinha só fama de valente, mas também de perverso, traiçoeiro, malvado e adorava furar gente só pra ver o sangue espirrar. Dificilmente deixava alguém com vida ao atacar uma fazenda ou casa de barão. Nunca fez prisioneiro; para ele, home sujigado era home morto; fazia isso aos poucos, com requintes de crueldade: primeiro arrancava um olho, depois a língua, descia para os ovos, capava o cabra e só se satisfazia quando este implorava pelo amor de Deus para que ele o matasse mais depressa. Emitia, então uma gargalhada satânica e cravava lentamente a faca no coração da vítima só para ver o esguicho vermelho. Era baixo, entroncado, de idade indefinida - podendo ser um velho precoce ou um moço envelhecido à força -, e tinha um excesso de peso que aparentemente se devia mais a uma inchação generalizada do que a obesidade. Os olhos eram miúdos e empapuçados, parecendo estarem fechados e ele precisando se esforçar sempre a fim de manter pelo menos um deles aberto. A tez amarelada era salpicada de cicatrizes - provavelmente seqüelas de varíola ou de outra enfermidade da pele. A cabeça era muito grande em relação ao tronco; o nariz lembrava um chuchu amassado e sob este se delineava um bigodinho fino, curto e ralo. Caminhava como um pingüim, as pontas dos pés formando ângulo obtuso em relação ao eixo do corpo e pendendo para um lado e para o outro, à medida que avançava. Trajava sempre uma calça cáqui, uma túnica do mesmo tecido e calçava sandálias de sola, com rabicho e contendo um septo onde ele apoiava a interseção do dedão grande com o outro seguinte. Cobria-se com largo chapéu de couro, com as abas, alevantadas e dispostas transversalmente na cabeça, à moda de Napoleão. No peito, duas cartucheiras cruzadas prenhes de balas. Nunca portava menos de duas peixeiras e dois punhais, distribuídos em torno da cintura e presos ao cós da calça através das alças das bainhas, além de um rifle a tiracolo que ele só retirava pra comer, dormir ou cumprir alguma necessidade fisiológica.
Todos nós, cangaceiros, trajávamos mais ou menos como o Carrasco, e éramos igualmente da sua absoluta confiança, exceto o Zé Caga-Baixim em quem ele depositava muito mais do que isto, pois era a sua eminência parda, guarda-costas, secretário, moleque de recados e eventual sucessor. Quem acabou de ler a primeira parte desta história, há de dizer: "O Carrasco era um homem destemido". Não era! Carrasco não temia arma de fogo, peixeira, punhal e nem qualquer homem valente. Mas tremia de medo diante do imponderável, do desconhecido, do sobrenatural, ou, como ele mesmo dizia, "das coisas lá de cima". Quando terminava de matar uma pessoa, esmagava a cabeça entre duas lajes, tirava fora os miolos e depois abria o peito para arrancar o coração, pois disseram a ele que era ali onde ficava a alma, mesmo depois do cabra morto. Portanto, enquanto o defunto tivesse miolo e coração o esprito dele podia sobreviver, virar malfazejo e em esprito malfazejo nem Deus do céu dava jeito. Pouca gente sabia, mas por dentro da túnica de cáqui, o Carrasco carregava uns escapulários que era justamente pra afastar espirito malfazejo. Quando o Sebite me desafiou era alta madrugada e noite de lua cheia; logo o Caga-Baixim foi acordar o chefe porque este não queria perder uma luta de morte ou ver um homem ser sangrado, por dinheiro nenhum deste mundo. Assistir a uma cena de sangue era o seu cinema, o seu circo, o seu futebol, o seu carteado. Hoje, depois de tanto tempo, ainda tenho a impressão de que o Carrasco sentia mais prazer em ver gente sangrando do que em gozar. Saiu do seu rancho, cruzou os braços e ficou à espera da minha reação diante da ameaça do Sebite, ou da minha não reação, quando então o seu prazer seria ainda maior, pois ele adorava assistir alguém ser degolado como um bode manso. A lâmina da peixeira do Sebite brilhava ao luar. O seu olhar fixo em mim era igual ao de uma cobra cascavel pronta para desferir o bote. "Então, filho da puta safado, vais querer que eu te mate assim mesmo parado feito um boi?" Foi neste exato instante que a "reima" veio chegando. Pouca gente conhece a "reima. Ninguém do bando a conhecia. A minha, quem me deu foi a Coló; a madrinha de batismo que me deram porque diziam que tinha parte com o diabo e ganhara poderes para proteger ou desgraçar qualquer vivente. Fosse Rei ou esmoleiro; rico ou miserável; bicho gente ou cachorro do mato. Eu sempre pedi à alma da minha madrinha para que a reima nunca aparecesse enquanto eu estivesse no bando do Carrasco porque sabia do seu medo doentio, e ele podia mandar me matar antes que ela chegasse. Quando estava perto de aparecer eu já sentia a diferença no meu corpo. Primeiro corria uma frialdade da cabeça ao calcanhar. Depois eu caía, me estrebuchava no chão, escumava muito pela boca, me espojava feito um porco na lama e as minhas unhas iam crescendo. O Sebite era muito magro; tão fino que quando ele tava de frente a gente pensava que ele tava de lado; quando ele tava de lado, a gente pensava que tinha idimbora, mas era mais esperto e valente do que o próprio Carrasco. Seu corpo, quase imponderável, facilitava-lhe uma agilidade felina; um saltitar de lutador de boxe; uma maleabilidade de trapezista e, se o seu adversário decidisse desafiá-lo numa luta corpo a corpo, se veria obrigado mais a se esquivar do que enfrentá-lo, sob pena de ser trespassado pela sua faca à primeira investida; então, só lhe restava desempenhar o papel de uma ratazana numa diversão macabra onde o agressor e as testemunhas prelibavam o fim da vítima enquanto se divertiam com o seu desespero e a expectativa do seu sofrimento físico. "Te prepara pra morrer, cabra da peste! Tá se fazendo que tá com opilência, seu covarde. Pra matar um cachorro da tua iguala eu num careço nem de me mexer. Te estrepo de costas e sem sair do lugar, mas se tu tá te fingindo de doente pra custar mais a morrer eu te enfio a peixeira assim mesmo; como quem sangra um bacorim cansado". A rixa que o Sebite tinha de mim só fazia três dias que começara e surgiu porque ele vestiu uma das duas ceroulas que eu possuía e tive de ir reclamar. Eu tinha ódio de quem pegava nas minhas ceroulas nem que fosse pra lavar, quanto mais se visse alguém vestido com uma delas. Não sei por que, mas achava que a minha reima ficava na minha ceroula depois que passava o efeito que provocava, e eu tinha mais ciúme dela do que da Fulô que foi a mulher que mais gostei neste mundo e eu tive de largar quando ela disse: "ou eu ou a reima". Claro que eu preferi a reima.
Quando eu comecei a me espojar, o Sebite pensava que eu estava inventando doença, mas depois, quando eu comecei a babar, achou que fosse mesmo a opilência e ele sabia que esta enfermidade pegava de longe através de qualquer respingo daquela baba. Foi neste instante que o Sebite parou de saltitar, se calou e ficou olhando pra mim desconfiado. Senti os meus braços e pernas encompridarem, minhas unhas virando garras e a ficar todo coberto de pêlos pardacentos. Minha cabeça também parecia modificar a sua forma, meus olhos foram empurrados mais pra fora e passei a enxergar tudo não só na minha frente como também o que estivesse para os lados. Tive uma vontade louca de gritar, mas da minha garganta só saía um grunhido rouco que foi aumentando com o passar do tempo. Parei de me espojar e tentei ficar de pé, mas só conseguia se me mantivesse de quatro. Olhei ao redor e vi primeiro um franzido na testa do Sebite. Os outros cabras também pareciam estar ficando apavorados. Quando o Carrasco desatou a correr, todo o bando seguiu atrás dele. O Sebite ainda vacilou e tentou resistir, mas quando avancei em cima dele, arremessou a faca pra bem longe e desabou no chão. Devorei o Sebite em menos de uma hora. No lugar em que ele se encontrava antes só ficou um ensopadinho de sangue e terra e uma carcaça de ossos. Quando o dia amanheceu eu estava sozinho no rancho e fui me olhar num espelho. Entre os meus dentes havia carne crua. Porém, o que mais me fez feliz foi retirar um a um os fiapos da minha ceroula. Que alívio! Minha reima estava garantida. Raymundo Silveira
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