Uma questão de consistência

"Fazer mal a uma moça" é uma expressão que atualmente significa tudo o que se possa conceber quanto a se praticar algo ruim contra uma mulher: roubá-la, assaltá-la, assassiná-la, causar-lhe alguma lesão corporal, enfim, molestá-la de qualquer maneira. Mas antes da década de 1960, significava "comê-la". Amarildo havia "feito mal" a Carolina, no ano de 1954, embora de um ponto de vista mais pragmático, quem se sentiu, de fato, mal foi ele mesmo, conquanto ambos tivessem - pelo menos durante um certo tempo - feito um "bem" enorme um ao outro. Mas, do ponto de vista da mentalidade daquela época, todo homem que tivesse "feito mal" a uma mulher virgem teria que, de um modo ou de outro, repará-lo, e uma das maneiras mais freqüentes, se não exclusiva, de fazê-lo, seria casar com ela. Se alguém, tendo nascido de 1970 para cá, estiver duvidando disto, consulte os "anais" - mas cuidado com o significado moderno desta palavra - da época por intermédio do maior fofoqueiro que conhece, contanto que ele tenha mais de quarenta. Amarildo não pensava como a maioria das pessoas, pelo contrário, achava que teria feito muito mais bem a Carolina do que inclusive a si próprio e, para evitar a tragédia de um casamento prematuro e sem amor, "tirou o time", desapareceu, escafedeu-se. A irmã de Carol, a Zélia, foi quem pôs "panos quentes" naquela tragédia. Mesmo assim, Amarildo foi procurado nos quatro cantos da Terra, mas tinha-se evaporado. Seu pai era proprietário de uma confeitaria cuja renda mal bastava para pagar as despesas e sustentar a família com muita parcimônia. O filho era a única pessoa com quem contava a fim de ajudá-lo.

O pai de Carolina era um homem de posses. Tinha algo mais do que possuía o "caboclo Marcolino" do baião de Luís Gonzaga, isto é, centenas de bois Zebu, duas enormes casas com varanda dando pro norte e pro sul e algumas barras de ouro no fundo do baú. Seu paiol estava vazio - porque ele já tinha vendido toda a safra daquele ano - mas o dinheiro estava no Banco. Carlito Cartaxo era o filho mais velho do ex-coletor do lugar e que também se chamava Carlito. Carlito pai fora demitido da função a bem do Serviço Público por causa de um vultoso desfalque, delito pelo qual ainda respondia na Justiça comum. Acostumado ao tempo de fartura em que o pai usufruía - além do ótimo salário -, o produto das suas falcatruas, Carlito filho nunca trabalhou embora já tivesse completado dezenove anos. O rapaz era portador de uma obesidade obscena. Media um metro e sessenta e cinco centímetros de diâmetro. Sim, de diâmetro, porque a sua conformação esférica não permitia que se lhe distinguissem altura, largura, nem profundidade. Três "cons" concorreram, para conscientizar, concomitatemente o pai de Carolina e Carlito pai a unirem os dois rebentos num matrimônio negociado: conveniência, concordância e convergência de interesses. A princípio tudo correu "bem", mesmo porque Carolina se livrara do "mal" que Amarildo lhe fizera e Carlito filho, da escassez de "bens". A rotina do casal se resumia em mais dois "cons": uma conformação tolerante, por parte da moça (que até se casar era conhecida como "aquela que não era mais moça", apesar das suas dezessete primaveras) e uma convivência agradável, da parte de Carlito filho, com aquela mulher que parecia gostar dele e, sobretudo, cuidava para que não lhe faltasse comida, pois ele nunca ficava sem comer num intervalo inferior a quatro horas. Sua primeira refeição era às cinco da manhã e consistia de dois pratos fundos de mingau, meia dúzia de pães e quatro tapiocas com muita manteiga e café com leite. Às nove, ingeria quatro copos de bananada, três sanduíches de queijo e um de mortadela. Pelo almoço, devorava um frango, meio quilo de carne, feijão arroz e farofa. Afora a sobremesa: meia lata de goiabada. Às cinco da tarde entornava uma panela repleta de sopa de feijão com macarrão e cuscuz. Às nove, ceava quatro "cachorros quentes", meio quilo de sorvete e um quarto de bolo, porque segundo ele "não se devia ir deitar com o estômago muito cheio". Este era o seu menu cotidiano mais freqüente, mas, para falar a verdade ele comia tudo. A única restrição que fazia era a "colchão de noiva" - uma pequena porção de doce de coco endurecido sobre uma camada de leite condensado sólido cuja consistência era também, segundo ele, muita dura e demorava demais para ser mastigado e deglutido; ou seja era muito trabalho para dar cabo de algo tão pequeno. Com este regime, Carlito filho engordava cada vez mais. Quando completou um ano de casado pesava cento e trinta e cinco quilos.

O tempo é remédio para tudo? Nem sempre; queria vê-lo curar a velhice! Mas para Amarildo o "remédio" tempo funcionou muito bem. Voltou pra casa a fim de ajudar o pai na confeitaria. Ninguém lembrava mais do escândalo, mesmo porque o "mal" que ele havia feito a Carolina, este sim, o tempo (e o casamento) remediara. Os antigos amantes voltaram a se encontrar quase todas as noites, depois que a plenitude gástrica de Carlito filho já fizera o seu efeito sonífero. O lugar inteiro sabia e Carolina sabia que todos sabiam da sua aventura, exceto o marido. Parece que a consistência e o volume de certa parte do amante eram bem maiores do que a dos doces dos quais Carlito filho tanto reclamava. Numa certa noite - era dia dos namorados - Carol era a expressão materializada da impaciência. Havia marcado o encontro com Amarildo para as dez da noite, mas naquele dia os cachorros quentes, o sorvete e o bolo não surtiram o efeito esperado. Carlito estava mais esperto do que se tivesse ingerido remédio para tirar o apetite e ele não tomaria um destes nem morto. Às onze da noite Carol não suportou mais. "Querido, tenho de sair para ver a Zélia que está doente e me telefonou para ficar um pouco com ela". "Tudo bem, amor, mas diz ao Amarildo que não mande 'colchão de noiva' como aquele que trouxeste ontem, por favor. Pede a ele um 'Souza Leão' ou, de preferência, um 'Luís Felipe' bem amanteigado. Detesto coisa dura!"

Raymundo Silveira