O segredo

"Ele age como se ainda não soubesse de nada, do contrário não estaria com este ar de despreocupação". "Por que não dizem logo a ele? Nada pior do que ser enganado. O hospital inteiro está sabendo, menos ele". Este diálogo se deu na recepção logo que o Dr. Alberto chegou de manhã cedo. Ao adentrar o Centro Cirúrgico todos os colegas pararam subitamente de conversar, mas ficaram se entreolhando; poucos tinham disposição e coragem para encará-lo. "Bom dia, pessoal!" O cumprimento jovial, sereno, alegre mesmo, aumentou o constrangimento dos colegas. Alberto era uma pessoa de bem com a vida. Extrovertido, dono de uma personalidade definida, bem humorado e com uma facilidade incrível de se comunicar e de fazer amizades. Durante o trabalho esbanjava energia. Operava oito, nove, dez e até mais pacientes numa só manhã; arrancava um útero em menos de quinze minutos, enquanto a maioria dos seus colegas fazia isto em pouco mais de meia hora; estava sempre bem disposto, jovial elegante e os clientes disputavam os seus horários a tapas. Nunca se lhe viu de mau humor. Mas nem sempre foi assim.

Ninguém é a mesma pessoa durante toda a sua vida. Pode parecer estranho, mas quem começou a escrever a primeira frase deste parágrafo já não é mais o mesmo agora. Outra conclusão que parece estranha, mas que está intimamente associada à primeira: o futuro e o presente não existem; tudo é passado! Duvidam? Pois enquanto leram esta simples linha, a lembrança dela já ficou no pretérito. Quaisquer pensamentos, palavras, atos, e omissões - tais como o catecismo ensinava quanto aos pecados - só se deixam entrever quando encarados retroativamente. Não dispomos de uma experiência científica a fim de demonstrar, mas existe uma maneira prática de se comprovar estas afirmações. Suponhamos que estejamos hoje com 59 anos. Procuremos fixar o nosso pensamento na época em que tínhamos, digamos, dez. Claro que dificilmente todas as pessoas são capazes de se reconhecer nesta idade, uma vez que a nossa memória é muito limitada. Mas se fôssemos capazes de fazer associações - livres ou não - com aquele ano específico, veríamos que não seria assim tão difícil. Quem está atualmente com 59 anos, estava com dez em 1954. Sigamos a uma biblioteca pública e consultemos os jornais daquele ano. Procuremos relacionar os acontecimentos da História formal com a nossa própria história pessoal. Chegaremos à conclusão imediata de que aquele menino não tinha absolutamente nada relacionado a este homem de hoje. As pessoas simplistas poderão alegar: "Lógico, entre uma criança de dez e um adulto de cinqüenta e nove anos nada poderá existir em comum. Mas isto seria mesmo tão óbvio assim? Pois fique-se sabendo que o nosso comportamento atual nada mais é do que a conseqüência direta do desenvolvimento psíquico de quando éramos aquele menino. E no entanto, um, nada teria a ver com o outro. Parece absurdo e paradoxal. E é mesmo!

Alberto estava agora com 36 anos. O seu temperamento não mudara, pois este é uma característica inata do psiquismo. Contudo, graças a muitas horas de análise, sua personalidade aparentemente tinha muito pouco em comum com ele quando tinha vinte e três. Naquela idade, sua avidez por reconhecimento era mórbida e se traduzia pela necessidade neurótica de auto-afirmação. Demais disto, detinha um comportamento rígido, seco, pouco flexível, vigilante aos seus próprios atos, quase em grau compulsivo. Mas controlava suas emoções utilizando a razão. A princípio lutou obsessivamente para se auto-afirmar através da escrita e se sentia injustiçado, pois se tinha na conta de um escritor da mais alta qualidade, mas ninguém, segundo ele, reconhecia os seus méritos por causa da inveja. Achava que este vício capital era inerente a todas as pessoas que desprezavam a sua "obra". Passava horas, dias, fins-de-semana inteiros a garatujar suas "criações literárias". Quando acabava, lia para as irmãs, para a mãe e para alguns amigos. Recebia elogios que considerava como se partissem do mais exigente dos críticos e publicava em revistas e jornais boa parte do que escrevia, à sua própria custa, onerando o orçamento familiar; deixando faltar em casa as coisas essenciais, uma vez que era arrimo da família pois o pai os havia abandonado desde quando ele tinha seis anos. Suas veleidades literárias levaram-no, inclusive, a editar um livro por conta própria. De uma tiragem de dois mil exemplares vendeu 50 cópias a pessoas conhecidas que as compravam exclusivamente a fim de se verem livre da chatice que era a insistência com que eram assediadas por ele. Dos mil novecentos e cinqüenta restantes teve de incinerar quase todos por absoluta carência de espaço para acomodá-los. Antes disto, porém, percorreu todas as livrarias da cidade na tentativa de convencer alguns livreiros a receber os volumes sob consignação, isto é, se vendessem, lhes repassariam o dinheiro. Do contrário, nada feito. Alguns deles, a princípio, aceitaram, mas como o encalhe era absoluto, nem assim recebiam mais. Chegou ao ponto de oferecer em doação a Bibliotecas de instituições filantrópicas, mas nenhuma delas dispunha de tanto espaço e tiveram de recusar. Ou seja, seus livros, mesmo gratuitos, ainda assim eram caros.

Agora, todavia, era outra pessoa. Fizera psicoterapia, testes vocacionais - os quais levaram-no a dar com os costados na cirurgia e abandonar a idéia de escrever -, e submetera-se a análise durante mais de dez anos. Era, o que se poderia chamar, uma pessoa de bem com a vida. "Bom dia, pessoal - repetiu -, por que este ar de velório? Por que estão tão calados? Esta sala nunca foi assim! Aqui mais parecia uma churrascaria de beira de estrada na hora do almoço!". Alguns colegas esboçaram um sorriso chocho, mas o constrangimento era geral e evidente. Outros retribuíram sem o menor entusiasmo, mas a maioria ficou calada. Suas perguntas corriqueiras eram respondidas com evasivas. "Minhas salas já estão prontas?" "Não sabemos, também acabamos de chegar". "O que há Renato, que bicho te mordeu?" "Não há nada; não sei de nada". Alberto teve de sair a fim de visitar seus doentes nas enfermarias de clínica cirúrgica. Ao deparar com as enfermeiras verificou que estas conversavam em voz baixa mas calavam subitamente quando ele se aproximava. Enquanto isto os colegas comentavam na sala de Repouso Médico: "Na minha opinião quem deveria falar com ele seria você Anastácio. És mais amigo dele, trabalharam juntos e já os apanhei dizendo confidências um ao outro". "Tu estás maluco, cara! Não entro nesta nem para ser promovido a chefe de equipe; este sim, o Laerte, é a pessoa não só indicada como tem obrigação de avisá-lo". "Sei não - comentou um terceiro que adorava ver um colega em maus lençóis -, mas penso que este caso é muito grave para ser resolvido aqui neste serviço. Melhor deixar que a própria Diretoria decida o que fazer. O Diretor já tomara conhecimento de tudo, mas ainda não chegara ao hospital. Em sua pauta constava como primeiro item daquele dia: "Caso Dr. Alberto".

Só começou a desconfiar quando notou que o seu armário teria sido violado. Era lá que ele guardava uma pilha de ampolas de Morfina e de seringas descartáveis com as quais se injetava no banheiro três ou quatro vezes pela manhã. Mas não entrou em pânico. Comportou-se junto aos colegas como se nada tivera acontecido e foi esperar o Diretor em sua sala. Quando este chegou, mal respondeu o cumprimento dele. "Doutor, tenho aqui todas as provas do seu crime. Além de usuário o senhor operava pacientes sob o efeito de opiáceos; também é traficante de drogas. Não me resta outra opção a não ser chamar a polícia". "Tudo bem senhor. Mas esteja certo de que eu, o senhor bem como todo o seu hospital estaremos complicados. Tenho cópias comprometedoras de sonegação de impostos, corrupção ativa, suborno, estelionato e outros atrativos similares praticados por esta diretoria. Guardo também "otras cositas", entre elas fotografias e filmes onde o senhor aparece chupando o pau do motorista deste bordel de veados. Escrevi várias cartas a pessoas confiáveis fornecendo indicação dos lugares onde estas 'obras de arte' poderão ser encontradas no caso de me acontecer algum 'acidente'." O Dr. Alberto deixou o Gabinete do Diretor com a sua nomeação, por escrito, para a Diretoria do Corpo Clínico. Desde aquele dia passou a ser mais respeitado não apenas pelos colegas como por todos os outros funcionários. Nunca sua necessidade de auto-afirmação fora tão bem atendida.

Raymundo Silveira