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Sexta-feira, 13 A primeira vez aconteceu quando tinha de sete para oito anos; daí em diante foi-se tornando cada vez mais freqüente. A estranheza do fenômeno o apavorava tanto a ponto de evitar comentá-lo com outras pessoas. Ademais era muito difícil de explicar através de palavras. Era uma espécie de cisão virtual da personalidade. Não, não era bem isto. Era uma divisão "real" de sua individualidade física, em duas. Sentia-se, de fato, um par de pessoas, e a alucinação parecia tão verdadeira a ponto de visualizar-se a si mesmo e inclusive comunicar-se consigo próprio como se fora dois diferentes indivíduos. Quando sucedia num ambiente solitário - um banheiro, por exemplo - a angústia era intolerável e ele tinha de sair dali imediatamente, pois temia perder definitivamente a razão. Evitava ficar sozinho por este motivo. A simples idéia de ter de se isolar já provocava ansiedade. O único alívio só era possível se encontrasse alguém por perto. Não se tratava, entretanto, de nenhuma claustrofobia, senão de um terror insuportável de si próprio. Nada disto, contudo, fazia-o parecer uma pessoa diferente em sua comunidade. Afora este bizarro acontecimento, tudo decorria em sua vida como se fora uma pessoa "normal". Capacidade cognitiva, relacionamento interpessoal, emotividade, vontade, orientação, memória, motivação, raciocínio lógico, inteligência, estavam aparentemente bem preservados. Aliás, esta última - mensurada pelo discutível método do Quociente Intelectual - situava-o num patamar fronteiriço à genialidade. A esquisita bipartição pessoal, todavia, se tornava mais amiúde, mas não o impediu de concluir primeiro, segundo e terceiro graus. Mas não estacou por aí, alcançou os níveis de Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Com o passar dos anos, os estranhos fenômenos foram-se tornando mais raros até desaparecerem completamente durante a primeira metade da segunda década de sua vida. Gabava-se de ser um cartesiano ortodoxo. Para ele palavras como cartomancia, quiromancia, espiritismo, umbanda, astrologia, inferno, purgatório, céu, tinham todas a mesma conotação obscurantista e, portanto, deveriam ter o mesmo destino, ou seja, a lixeira do mundo. Chegava mesmo a desafiar o desconhecido e, quando bebia, dizia só acreditar no diabo se este fosse capaz de lhe causar algum mal. O pós-doutorado foi concluído (ou quase) na Universidade de Heidelberg. O parêntese é compulsório porque a trinta e cinco dias da data marcada para a defesa da tese sucedeu o imponderável. Ele e parte de sua turma se reuniram a fim de participar de uma Conferência em Berlim. Hospedaram-se no Hotel Alexandra, não apenas pelo baixo custo de sua diária mas também por ficar muito próximo à Ku'damm, o logradouro mais famoso da atual capital alemã. Estende-se por cerca de quatro quilômetros e começa nas imediações das ruínas da Igreja Memorial Kaiser-Wilhelm, um dos símbolos da hecatombe da década de 1940. A cerimônia de abertura da Conferência seria no Sábado à noite e teria lugar no famoso Schinkel Pavilion, uma reconstrução minuciosa do Pavilhão Schinkel, cercado por belíssimos jardins e símbolo de ostentação da nobreza prussiana. Na tarde da Sexta-feira, 13 de Agosto, o grupo de estudantes deixou o hotel, entrou na primeira estação do U-Bahn (metrô) e se dirigiu para o parque Tiergarten. Ali e nas suas imediações havia de tudo quanto possa interessar aos jovens: outros jovens, pop music, danceterias, descontração, jogos eletrônicos, sexo, álcool e outras drogas. O brasileiro iniciou os trabalhos bebendo seis longas canecas de chope e fumando dois baseados no curto espaço de trinta minutos. Após esta "entrada", as imagens que se formavam em sua retina passaram a assumir um aspecto estranho. As pessoas às vezes estavam vestidas, mas após poucos segundos se desnudavam; todas as mulheres pareciam-lhe interessar-se sexualmente por ele, enquanto os homens olhavam-no agressivamente como se estivessem ameaçando matá-lo. Aquilo lhe era tão "real" como naquelas espécies de sonhos onde se tem quase a certeza de que o estado é de plena vigília. Mesmo pessoas consideradas absolutamente sadias já experimentaram pelo menos uma vez na vida aquela experiência onírica. Na companhia de dois amigos entraram num banheiro público onde cafungaram - estendidos sobre a superfície de um pequeno espelho - três longos filetes de cocaína pura recém-importada da Colômbia. Os resquícios de realidade esmaeceram em sua mente. Desde este instante, passou a ignorar, inclusive, a presença dos colegas. Junto à extremidade oeste do parque, grupos de moças permaneciam deitadas descontraidamente sobre a relva. Mas o que ele "via" era um bando dissoluto de hetairas despidas, com as pernas entreabertas, acenando-lhe lascivamente. Não titubeou. Partiu para cima de uma delas e foi contido pelos colegas. A muito custo conseguiram reconduzi-lo ao hotel onde permaneceu até o amanhecer em estado de contratura generalizada dos músculos, pupilas esbugalhadas e esboçando crises convulsivas ante o olhar assustado do companheiro de apartamento. Isto sucedeu pouco tempo depois da queda do "muro". Desde aquela manhã ele é quase tão vivo quanto um pinheiro, uma mangueira, um pé de alface. O olhar é fixo e indiferente; a postura é sempre a mesma, ou seja, qualquer uma daquelas em que o puserem; raramente, a cabeça e os membros superiores sacolejam simultaneamente no mesmo ritmo como se o fizesse sob a ação de uma ventania; a atitude é de estupor; obedece automaticamente, com indiferença, a qualquer ordem, desde que a esta esteja condicionado através de esforços repetitivos de terceiros; não fala; não interage com o ambiente nem com ninguém. Não sabe quem é. Nem mesmo se é! |