| Sete pecados capitais (7 contos)
Preguiça Era uma manhã de Domingo como poucas. Um sol de Almirante brilhava num céu de Brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano, e nada mais. Isto originava, em quem a contemplasse, uma aura sensual a se disseminar através de todos os sentidos e produzia um bem-estar incomum; uma espontânea alegria de viver como raramente costuma suceder aos habitantes das grandes metrópoles. Enrodilhado em seu leito de cetim, Anselmo Ribeiro ignorava por completo aquele cenário paradisíaco acessível apenas a ele e a outros pouquíssimos privilegiados. Morava numa cobertura duplex e se vangloriava de que o seu vizinho dianteiro habitava o litoral africano. Apesar disto, raramente assomava à sua panorâmica janela; nunca descia para a praia - pois dizia detestar areia, sol e água salgada -; e, portanto, ignorava aquela tal sensualidade a que as outras pessoas se referiam ao fitarem aquele deslumbrante panorama tão ao alcance do seu desdenhoso interesse. Aliás, o único interesse dele era quase uma monomania. Apesar dos seus quarenta e sete carnavais, de uma vida faustosa onde nunca conhecera a escassez material, uma saúde férrea e o exemplo e incentivo duma família ilustrada - o pai era médico famoso; a mãe, destacada artista plástica; dois irmãos eram escritores e a irmã, professora universitária -, ele só se interessava praticamente por sexo. Sua iniciação nas lides deste mister se dera bem precocemente e tivera como "preceptora" uma prima mais velha, também devotada cultora de Vênus desde a mais tenra idade. Chamava-se Isabele. Era uma morena linda de olhos verdes, cujo perfil lembrava muito o da estátua famosa representativa da "divindade" por ela cultuada, oriunda da ilha grega de Milo, e cujo exemplar mais conhecido se encontra no Louvre. Os dotes estéticos de Isabele eram complementados por um caráter lúbrico tão exuberante a ponto de rivalizar com outra divindade: Ninfa - deusa dos rios, dos bosques e das montanhas. Isabele seduziu o primo quando este mal ensaiava os primeiros passos no terreno minado da puberdade, aos catorze anos incompletos. Ela mal havia comemorado a décima quinta primavera no jardim da sua existência, mas já tivera um número equivalente de amantes. Era, portanto, especialista no assunto e, como todo especialista, fazia questão de gerir unilateralmente o seu ofício. Quando iniciou Anselmo nas delícias da fornicação, o rapaz estava quase a dormir, mas exibia uma ereção digna do deus Príapo. Ao perceber aquela protuberância, Isabele ficara extremamente excitada; uma onda de desejo perpassou-lhe o corpo, pondo em êxtase todos os seus sentidos e ela não se conteve. "Sou eu, Anselmo. Não se mexa. Finja estar dormindo e deixe tudo comigo". Jogou fora a calcinha e cavalgou o rapaz durante deliciosos quinze minutos, ao fim dos quais, cada um atingiu simultaneamente um orgasmo indescritível. Como para ele havia sido a primeira vez, não pôde reprimir um grunhido rouco e prolongado. A partir daquela noite transaram quase todos os dias e, em alguns dias, mais de uma vez. Sempre sob o domínio, a iniciativa, a técnica e o controle absoluto da moça. Aos dezesseis anos Anselmo já conhecera o prazer físico com mais freqüência e intensidade do que qualquer homem comum da casa dos trinta. Com uma única diferença: ele jamais participara do ato sexual com o mais leve movimento. Portanto, até então, ele nunca, literalmente, "trepara", pois esta tarefa era executada meticulosa e exclusivamente por sua prima. Ele gostou tanto que cultivou este hábito para sempre. Não que Isabele fosse a sua única parceira. Pelo contrário, o moço era promíscuo até a raiz dos cabelos. Nos fins de semana dava conta de três, quatro, cinco e, às vezes, até meia dúzia de mulheres. Todavia, a técnica copulativa utilizada era sempre inversa à modalidade convencional, ou seja, executada ativamente pela fêmea. Todas as amantes eram previamente instruídas por ele a este respeito; algumas protestavam, mas aquelas que ousavam recusar a se submeter eram sempre descartadas. Os companheiros sabiam disto e faziam assuadas: "Já vai, hem estátua!" "Tu nunca 'comeste' ninguém, cara, as mulheres são que te 'comem' ". "Olá, espinhaço de hipopótamo!" "Ei ferreiro, me empresta teu torno pra eu fazer uma torneira" Passou-se, passou-se, mas, para Anselmo, aquele hábito nunca passou. Pelo contrário, se estendeu a todo tipo de atividade física ou mental que lhe fosse requerido. Possuía empregados e, sobretudo empregadas, para tudo: dirigir, abrir a porta do automóvel, barbear-se, vestir-se, calçar os sapatos, pentear os cabelos, pressionar o botão da descarga sanitária e, diziam com exgero os mais galhofeiros, até para urinar existia uma serviçal encarregada de executar parte daquela "tarefa". Não obstante isto, o moço era um autêntico Casanova. Traçava tudo! Não precisava conquistar, pois era sempre conquistado. Muito rico, jovem, bonito como Apolo - a propósito, sua existência era povoada por divindades mitológicas e personagens bíblicas as mais diversas, pois dela tomavam parte, como vimos, as deusas Vênus e Ninfa, o supracitado Príapo, além de Baco, Sátiro e do hebreu Onan -, mulheres para ele nunca foram problema. Isto é, problemas elas foram sim, mas pelo excesso, nunca pela escassez. Parece uma contradição a alusão a Onan, pois insinuaria, à primeira vista, a idéia de "trabalho" e de fato trabalho existia, só que nunca era executado pelas suas próprias mãos! Ficou dito - sem necessidade nenhuma - que o tempo passou. Estamos agora no apartamento duplex de Anselmo, aos quarenta e sete anos, naquela belíssima manhã de Domingo, com sol de Almirante em céu de Brigadeiro. Pouco antes disto ele conhecera Camila, uma linda inglesinha por quem, afinal, se apaixonara. Além de lindíssima, ela era inteligente, culta e alta executiva de famosa Empresa multinacional. Em função disto, era também muito viajada. Conhecia, como a palma da mão, as principais cidades dos cinco continentes. Mesmo habituado às facilidades de suas conquistas, Anselmo imaginara o quanto seria difícil levar Camila para a cama. Foi, com efeito, o que sucedeu e quanto mais ela recusava, mais intenso era o seu desejo. Pois na noite anterior àquela manhã de Domingo ele alcançara finalmente o tão ansiado intento. Não! Ele jamais exigiria dela aquilo que fora a tônica de toda a sua vida sexual. Nesta noite ele pretendia ser o melhor dos amantes. Nunca ousaria requerer àquela mulher a quem, de fato, tanto amava, que se submetesse ao seu indolente capricho. Mas, para seu desespero, pela primeira vez broxara. |