| Sete pecados capitais (7 contos)
Inveja Era uma vez (e dizem que ainda é), um pequenino tucano cujo bico era muito maior do que a cabeça. Suas narinas eram ocultas, a plumagem escura e o papo, vermelho. Habitava uma certa região da mata atlântica - hoje praticamente extinta - e pulava muito mais do que voava. Sucedeu que o pobre tucano detinha um compulsão enorme por voar um pouco mais alto do que até então era capaz; menos para chamar a atenção dos outros animais, senão por uma necessidade intrínseca de libertação. O tucaninho dispunha de quase nenhum espaço para a prática dos seus exercícios voláteis, pois o território disponível para isto era muito limitado. Aconteceu, então, um fato surpreendente e inusitado. Leões, Girafas, Elefantes e outros animais de grande porte decidiram expandir largamente os seus domínios, proporcionando, não apenas aos tucanos, mas também a todos os outros animais, largas faixas de terra para serem utilizadas por estes - ao alvedrio de cada um -, desde que contribuíssem para incrementar ainda mais as suas já vultosas reservas alimentares. O pequeno tucano não perdeu tempo. Passou a ocupar - até com um certo abuso - o espaço aberto pelos animais dominantes. Com efeito, começou a ensaiar vôos cada vez mais elevados do que aqueles a que estava habituado. A princípio, o restante da fauna nem sequer percebia aquelas maluquices da petulante e esquisita ave. Todavia, era uma vez também (e dizem que ainda é; e parece ser cada vez mais), uma enorme avestruz que também tinha muita vontade de voar (não se sabe bem ainda se, como o tucano, para se libertar, ou, por outro lado, chamar a atenção de toda a bicharada). Contudo, ao contrário de suas irmãs, era muito preguiçosa e incapaz: mal andava, não corria, nem se esforçava nem um pouco para alçar vôo. Apesar disso, prestava muita atenção nos esforços do pequeno tucano e sofria demasiado por sua impotência em tentar imitá-lo. De tanto observar as esquisitices da outra ave, desenvolveu um tormento infinito, temendo que ela terminasse por alcançar o seu intento. Não dispondo de recursos eficazes a fim de cercear as atividades da outra, decidiu buscar meios de ridicularizá-la, induzindo os outros bichos, através de uma espécie de proselitismo às avessas. "Ora, vejam que ousadia a daquele vaidoso tucano"; "como se atreve a querer voar acima daquilo a que o seu destino predeterminou?"; "reparem como são grotescas e petulantes suas fracassadas tentativas!" De tanto tagarelar, a avestruz acabou, de fato, chamando a atenção dos outros bichos, cuja imensa maioria, no entanto, terminou por não compartilhar das sua iradas opiniões. Pelo contrário, alguns deles chegaram mesmo a admirar as atividades do tucaninho e a solicitar-lhe que praticasse com mais freqüência os seus exercícios. Um detalhe curioso e que não tem nada a ver com o enredo dessa história, é que a pequena ave desenvolveu uma certa ojeriza ao seu próprio nome. É que um grupelho de outros animais que se dizem superiores e hoje se empenha com afinco em aviltar todo o território do tucano resolveu, à sua revelia, tomar-lhe a imagem para usá-la como símbolo de suas estripulias. |