| Sete pecados capitais (7 contos)
Gula Encontrava-se em Londres, em plena Oxford Street, depois de "bater pernas" das nove da manhã às três da tarde. Estava exausto, faminto e entrou num self-service a fim de descansar um pouco e recarregar as energias. Habituado aos paradoxais bufês tropicais (paradoxais porque enquanto lá dentro há mais do que fartura, há desperdício, cá fora campeiam a fome e a miséria), servira-se parcimoniosamente pretendendo retornar outras vezes a fim de se abastecer aos poucos. Terminada a primeira "leva" - uma mísera porção de salada de legumes -, levantou-se e foi pegar mais. "Quebrou a cara!" O maître, muito educadamente, mas com firmeza, o encarou e pronunciou estas palavras: "No more, sir". Ou seja, só se tinha direito a uma única passagem pelo bufê. Pusesse-se qualquer que fosse a quantidade. E o pior ainda estaria por vir. Mesmo "morto de fome", pagou a mesma importância de quem se empanturrou: doze libras! "Tudo bem", disse com os seus botões, "na próxima irei descontar". Mas não houve uma próxima nem meia próxima; pelo menos em Londres. O empreendimento mais difícil de ser executado no interior da Noruega é adquirir bebida alcoólica! Sob este ponto de vista não existe a menor diferença entre Kongsvinger - por exemplo - e a Chicago dos "twenties". Só não se entende por que ainda não surgiu por lá um "Scarface". Jocosidade à parte, o alto índice de alcoolismo entre a população, sobretudo a mais jovem, parece haver compelido o governo a tomar sérias medidas restritivas quanto ao consumo de álcool. Bebida, só nos bares dos hotéis, servidas exclusivamente a hóspedes e - mesmo assim -, apenas no horário das refeições. Certa noite em Laerdal estava a ponto de "beber nas calças" e a entrar em crise aguda de síndrome de abstinência. Havia apenas um supermercado aberto e foi para lá que se dirigiu com o mesmo ímpeto de quem se encontra em plena travessia do Saara, em vias de enlouquecer pela sede e acaba de avistar um oásis. Percorreu todas as gôndolas; cada garrafa que pegava parecia conter o líquido de que tanto necessitava, mas era tudo miragem. Nada de cerveja, vinho, nem muito menos conhaque ou uísque. Implorou aos céus para encontrar pelo menos algo assemelhado ao popular Biotônico Fontoura do seu amado e saudoso país. Mas não havia nada parecido. De repente deu de cara com algo escuro, viscoso, rotulado em norueguês, mas que o seu sexto sentido de bebedor inveterado gritava estar ali contido o "precioso líquido". Pegou uma garrafa e acalentou-a ao colo como se fosse bebê (como se fosse bebê, não, porque iria mesmo bebê-la; como se fosse um nenê!). Passou pelo caixa apavorado, temendo que lhe viessem revistar e pagou sem esperar pelo troco. Correu para o quarto do hotel e atravancou-o por dentro. À falta de um saca-rolha, quebrou o gargalo na pia do banheiro e entornou o conteúdo goela abaixo. Só consegui tomar um trago. Tratava-se de refinado detergente! Laerdal é quase uma aldeia. Um pequeno povoado bucólico e majestoso ao mesmo tempo, graças à sua peculiar paisagem de sonhos, representada pela vegetação luxuriante, pelas montanhas com picos cobertos de neve e pelo fiorde (Sognefiordo), cujas águas cor de anil deixam refletir tudo ao seu redor. Aconteceu ao jantar. O smorgasbörd continha de tudo que se pudesse imaginar, como, aliás, sucede em toda a Escandinávia. Do salmão defumado ao caviar; do faisão ao filé com trufas. Estava, mais uma vez, com muita fome. Havia almoçado frugalmente, pois sempre que viajava e a paisagem era espetacular, como foi o caso naquele dia, nunca conseguia pensar em outra coisa; esquecia até de comer! Naquela noite, por conseguinte, estava faminto, com sede, frustrado por causa do miserável detergente e foi lembrar exatamente do episódio acontecido no restaurante londrino. Não teve dúvida, abarrotou o prato, temendo um veto a uma segunda incursão aos manjares. Parecia que iria ingerir a "última ceia". O volume de comida era tamanho ao ponto de provocar risos e chamar a atenção dos circunstantes A guia da excursão era uma inglesa de Cambridge. Além da tradicional fleuma britânica, era dotada de um comportamento muito sóbrio, e bons modos eram-lhe tão naturais quanto escovar os dentes... ou respirar. Discretamente, mas com firmeza, interpelou-o: "What are You doing? Don't do that, please. You can return back as time as you want". |