Sete pecados capitais (7 contos)

Ira

Era assaltante, homicida e estuprador. Estava preso há cinco anos mas obteve liberdade condicional graças a "bom comportamento". O primeiro ato em liberdade fora um assalto a um supermercado. Era véspera de natal, mas, para ele, era como se fosse um dia como qualquer outro. Pouco se importava com a filha de dois anos e muito menos com a mulher. No dia seguinte seguiu para o consultório do Dr. Benício a quem pediu e obteve um empréstimo avultado. "Empréstimo" era um eufemismo para substituir extorsão e suborno, pois o médico se cercava de pessoas iguais a ele durante as suas violentas farras com a ilusão de que estaria mais seguro. Os assaltos prosseguiam. A princípio evitou, como pôde, lesões corporais e estupros. Mas não passava sem o "crack" e este estimulava seu impulso sexual já exacerbado. Acompanhado de dois asseclas assaltou uma residência e estuprou um mulher diante do marido e dos filhos. "Se comentarem isto com alguém voltaremos para completar o serviço". O rastro de violência foi-se incrementando. Após mais meia dúzia de estupros invadiram outra residência e encontraram uma grávida de oito meses. Depois que os três a violentaram tiveram vontade de abrir-lhe a barriga para ver como era dentro. O marido e o pai da mulher se ajoelharam e imploraram. Cortaram o pescoço de ambos e o primeiro abriu o ventre da mulher com um só golpe de faca. O bebê saltou fora envolto ainda nas membranas e numa enorme poça de sangue. Estourou a bolsa das águas. O nenen mal respirou. Decapitou a criança sem piedade. Os outros dois bebiam uísque, comiam e se riam.

O Dr. Benício chamou-o no dia seguinte. "Tenho um trabalho a fazer. Só quero que me dês cobertura. Tens de vir acompanhado de dois ou três companheiros. O serviço tem de ser feito por mim, pessoalmente". Uma filha menor do doutor havia sido seduzida por um empregado de sua clínica e ele decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Combinaram a tarefa para a próxima Sexta-feira após o expediente do doutor. Este tinha uma clínica luxuosa botando clientes pelo ladrão. Atendia a todos sob o efeito constante de cocaína. Esta droga dá uma sensação de onipotência, bem-estar, auto-estima e confiança. Só bebia álcool quando terminava de atender o ultimo cliente. Os pacientes viam naquele comportamento fora do comum um exemplo raro de dedicação, amor ao trabalho, responsabilidade e eficiência. Por causa disto o doutor cobrava o equivalente a cento e cinqüenta dólares por uma consulta, mas, mesmo assim, só costumava haver vaga quando marcada com três meses de antecedência.

Na data marcada o médico cheirou o dobro da quantidade de pó que costumava consumir. Exatamente às oito da noite terminou de atender o último cliente. O sicário já o esperava na recepção devidamente assessorado. Convidou-os a entrar, retirou duas garrafas de "Old Parr" escondidas detrás de uns livros enfileirados numa estante e ingeriram o conteúdo à moda caubói. Em menos de uma hora secaram as duas garrafas. O Dr. Benício retirou ainda de debaixo do mesmo armário um revólver e uma navalha. Conferiu os projéteis da arma de fogo e testou a navalha no edredom da própria mesa de exames. A mistura do álcool com a cocaína fez o seu efeito. O médico não detinha mais a menor manifestação de consciência. Seu comportamento passou a ser regido unicamente pelos instintos. E destes, pairava acima de tudo o de Thanatos. Tirou o carro da garagem mas entregou o volante a um dos marginais. O revólver estava ainda no coldre mas ele o alisava insistentemente como se quisesse sacá-lo ali mesmo e atingir qualquer pessoa que encontrasse pela frente. O marcador da reserva de combustível estava no ponto zero. Pararam num posto de gasolina e reabasteceram. Tentou pagar com uma nota de elevado valor mas o frentista avisou que não havia troco. Foi o suficiente para o doutor desfechar cinco tiros na cabeça dele. Fugiram a toda velocidade para uma quinta que o médico possuía nas imediações da cidade. No dia seguinte o marginal compareceu à delegacia e assumiu a culpa do crime. Foi recambiado á prisão. Mas desde aquele dia a vida do Dr. Benício dera um giro de cento e oitenta graus. Passou a viver literalmente no inferno. Sob constante ameaça de morte, chantagem e extorsão. Os marginais lhe extorquiram até o último tostão. Um ano depois o doutor sumiu durante uma semana. Até que foi encontrado num matagal próximo à sua quinta. Com a boca cheia de formigas.